sábado, 8 de outubro de 2011

Não diz no horóscopo qual é o dia da caça e qual é o dia do caçador.
Prestar sempre atenção
caça sim, caça não
não faça súplica, não peça perdão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pombo no domingo

Domingo, ele de chinelo curava sua ressaca na currutela do bairro Pedro Ludovico - dois pastéis e um caldo de cana. Fez as compras e voltou pra casa cheio de sacolas, aquele andar meio trôpego domingueiro - dia nem bendito nem maldito, domingo não é céu, não é inferno, é categoricamente o purgatório.
Quando viu o pombo degringolado. Debaixo de uma roda de carro estacionado.
Domingo atiça para as pequenas coisas. Repara no azulejo trincado, na banana e as mosquinhas drosófilas arrudeando, naquele quadro torto na parede, naquele retrato em cima da estante. No domingo a gente é menor. Uma humanidade que não se pede, vem pelo calendário juliano. Domingo é sempre um estágio, entre o descanso recompensado e o ócio que irrita - pasmaceira. Domingo é auto-referente, nunca nos esquecemos que amanhã é segunda indelével - e pense no domingo em Brasília, pode se ser mais auto-referente que isso?
O moleque viu a pomba maltratada porque era domingo.
Havia sangue fresco ainda, havia sido morta há pouco, certamente. Deixou as compras no chão, se aproximou. A pomba se dividia entre estar sob e, ao mesmo tempo, ao lado da roda, toda esmagada entre o pneu e o meio-fio. Ele olhou com menos distância, viu-a bem de perto; parecia respirar. Eram seus últimos suspiros.
Malquista, portadora de doenças, resfolegava. Pedia atenção com a humildade de quem aprendeu algo nas ruas. Suas asas quebradas, inválida. Era calor e exalava um forte odor. Quantos passaram pelo pássaro ali e não o viram? A morte não dói incondicionalmente? A morte não se basta na sua morbidez? Luzes em cima da pomba, é isso? A morte não é sempre triste? Não é nódoa?
O pombo morreu e ninguém chorou por ele. O moleque fitou curioso. Via uma pomba toda fudida como se visse um corpo na mesa de autópsia. Prestou suas condolências como quem escreve obituários; enojou-se, pegou suas sacolas e foi para casa preparar seu almoço - frango assado com batatas.
O pombo definhou pouco a pouco, aguentou por mais 4 horas de vida certo de que se tivesse voz e pudesse gritar, nada aconteceria.