terça-feira, 30 de agosto de 2011

domingo, 14 de agosto de 2011

Se o mundo é cão
sou cachorro mesmo.
Cachorrão.
Entretanto, se é pra ser cachorro,
faço questão de ser vira-lata.

Anticristo

Ser gentil com quem é gentio.
Ser bugre que o pêlo arrepia mais.
Ser pagão pelo desapreço por essas bestas
desembestam a pagar (apagar) nossas vaidades com inquisição
como quem compra pra comprimentar
depois usa, usurpa.
Quem cumpre cumprimento pelo bom mocismo. São maus.
Ser filho de puta larga.
Ser não, por que não?
Ser Deus porque sim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Capitão América

Vivem a nos enganar, já devia ter aprendido isso. A minha afeição por filmes estratosféricos, de orçamento estratosférico, de produção estratosférica, de efeitos especiais estratosféricos, de ação frenética e desenfreada é muito seletiva. Ludibriado pela propaganda, pelo teaser e pelo trailer fui ver Capitão América no cinema. Antes de descer a lenha, permita-me dizer que eu não acho esse o pior herói de HQ. O Capitão América é um herói politicamente muito importante. Inserido nesse belicismo americano no contexto das guerras mundias do século XX, ele representou um discurso e um retrato dessa cultura. Além disso, eu tenho um fraco pelos heróis de poucos poderes, os malditos. Batman, Wolverine e o próprio Capitão América.
Um filme desse porte, com esse investimento não pode ser tão insípido. Transformers que é um filme de merda, ao menos me apresenta efeitos especiais deslumbrantes, uma pesquisa de design de máquinas e robôs, etc. Capitão América não tem nada de novo. Fotografia medíocre (todos os cacoetes do cinema clássico de ação; o tratamento da imagem muito me lembrou Watchmen), Direção de Arte que imita todos esses filmes passados na guerra (a roupa dele é legal), os efeitos especiais são às vezes até meio toscos, erros de continuidade, enfim, um filme preguiçoso.
Ruim mesmo é o roteiro e o argumento. Os EUA há alguns anos perderam sua invencibilidade como potência e têm tentado de muitas formas se reafirmarem no cenário político mundial. Tornaram-se uma nação viciada, pouco inventiva e o capitalismo, um modelo econômico camaleônico por natureza pois baseia-se na competitividade, se engessou com todo o resto. A questão da guerra tão presente nos HQs do herói seria um ótimo mote para posicionarem-se e fundamentarem seus argumentos de forma crítica e afirmativa. Obama subiu ao palanque porque o mundo quis ver um estadista que desse essa nova cara, mas... efetivamente, temos substancial mudança? A crise sugere outra coisa. No cinema não poderia ser diferente. O cinema já foi mais influente nos hábitos da cultura mundial, contudo ainda é uma força importante de promoção de uma nação. É um desperdício um símbolo como Capitão América não ser usado de forma mais estratégica, merecia um roteiro bem construído tecnicamente e que provocasse discussão como esses dois da nova safra Batman. Falta é um pouco de amor próprio pro país mais orgulhoso do mundo, falta capricho pro país mais competitivo do mundo.

Poema para Rachel Weisz*

Linda você nessa cena
esteve deslumbrante
quando deram aquele close na sua nuca e eu pude ver aquele cabelinho arrepiando
nossa
ah, nossa

eu inda caso com você
não quero nem desfilar no tapete vermelho
a gente vê a cerimônia aqui em casa mesmo
debaixo das cobertas
eu, você e essa nuca

*Rachel Weisz, Evan Rachel Wood, Mary Elisabeth Winstead, Paz Vega, Kate Winslet (!), etc.

Vai que

Lelê, eu não sou triste. O mundo não é pesado pra mim.
Guito, eu escrevo como quem corta os pulsos? Quem disse que eu sou a arte que faço? Quem disse que isso é arte? Quem disse que há esmero nessa joça?
Mãe, você não lê isso aqui, né? Já é tarde pra dizer.
Fritz, vou repetir: mano, como é bão esse negócio de viver.

Acordo todo dia querendo mandar o mundo à puta que pariu, mas sem ofender ninguém, tranquilo? Uma rebeldia sã, dá pra entender? Já entendi essa de conviver, chego a gostar disso tudo. Eu gosto de vocês. Muito. É que nada tá aí por estar, aliás, tudo está aí por estar, mas tudo está aí pra que a gente veja. E pense. Só quero que, por favor e por amor, deixe eu pensar por mim mesmo. Você vê coquinho, Raulzito vê nicuri.
Eu não quero pertencer, mas preciso; é mais sensato assim. Acabou. Não se fala mais nisso. Pra vocês que se afligem com qualquer chagazinha, volto a dizer, não dou ponto sem nódoa.



Eu, essa velha resmungona.


Mas sã.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cartas da Mãe

São Paulo, 1º de setembro de 1978.

Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor. Nunca amei uma pessoa. E tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho, por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês. Um dia, vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil: vou ser o mais feliz de vocês.


Henfil