quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sobre eu, eu e os Hikikomori (e há outra coisa além disso?)

A alteridade é o efeito colateral do mundo de pleno acesso à informática, um mundo onde todos são consumidores e produtores de informação, a cibercultura. O culto cego do que é instantâneo e do que é individualizado suprime a memória coletiva e superlativiza o 'eu'.
Estou combalido pelo mostruário impertinente de 'vocês' - que só me levam a ser 'eu'. Eu estou cansado de ser eu e sei que vocês também estão. Eu vejo vocês o tempo todo, um bando de Maurício Campos Mena passando na minha televisão, na tela do meu computador. O que você tem de melhor, de intrínseco a você, de idiossincrático sou eu mesmo. A sua parte mais sua sou eu.
O meu âmago, esmagado pelo meu cérebro, grita no vácuo. Estamos a nos trombar nas escadarias como quem procura inconscientemente um pouco de tato, pois, ora, a minha bolha existe. O simulacro, nova dimensão de realidade, existe e é.
Hikikomori são pessoas avessas à sociedade, vivem auto-suficientes em seus apartamentos. Diferentemente da doença do pânico, uma disfunção psicológica, e do eremitismo, uma escolha voluntária ou religiosa, assim vejo, são acometidos pelo niilismo, pela resignação às facilidades tecnológicas pois essas tudo lhes proveem. O outro é agora ser virtual e onipresente, e se o outro sou eu, e eu vivo só, essa sociedade sou eu e nada mais. Tudo ao meu redor se traduz em mim. O meu umbigo é o epicentro do mundo.
Feliz hoje daquele que é um escritor-fantasma ou que escreve obituários. Se poesia é o 'eu' cuspido e escarrado, esses tempos são tempos poéticos. Mas se poesia é o que desafio o tempo, o que subverte e questiona, as condolências que o jornal - também chamado aparato para bosta de cachorro - estampa , é o mais próximo que teremos da nova poesia.
E dirão que no nosso tempo não há nada! Que somos jovens indolentes! Que 68 é o maior ano da história e que houve um tempo que reis eram decapitados. A revolução que estamos fazendo é a mais silenciosa e perniciosa que o mundo já viu. Nossa passividade ainda vais nos levar muito mais além. Não há consciência no que estamos fazendo, essa nova História que estamos a escrever em laptops e IPads, não será televisionada, nem estará no youtube como matéria, produto, obra ou coisa sólida, isso tudo é abstrato e entra no sistema linfático do mundo que está a adoecer.
Eu na minha casa sem você. Você na sua casa sem mim. Eu te vejo, você me vê.

Um comentário:

thiagobs disse...

Broder...não sei se me identifiquei com o conteúdo ou se é saudade de "filosofar no boteco" contigo mas esse foi sem dúvida um dos textos que mais curti na transpiradura (sem trocadrilhos)e olha que apesar desse longo silêncio sou dos maiores fãs desse acervo.
Mandou bem, mano, eh nois nas conexão digital hehe!!!