quinta-feira, 3 de março de 2011

Tratado sobre a cegueira

Ontem foi dia de exerese de calázio. Uma cirurgia boba pra tirar um cistozinho que restou de um terçol - terçol com cedilha mesmo, pois terssol é manutério e manutério é toalha de padre.
O oftalmologista me vedou o olho esquerdo para não haver infecção e cicatrizar logo, daí aproveitei a deixa. Pedi ao meu irmão que fizesse um curativo no olho direito também; ainda coloquei um óculos escuro para melhor simular minha cegueira.
E aqui vão as observações de minhas 8 horas cego.
1 - As mãos são o prolongamento do coração, como eu já havia dito poesias atrás. Poder tocar, abraçar, segurar. Olhar e ver é mesmo diferente.
2 - A entrada que dá para sala, não nega minha intuição, é mesmo estreita: joelhos sofrerão ainda mais. Isso vale para os meus velhos, principalmente.
3 - Quanto sofrimento para achar a pasta do Itamar Assumpção no meu celular! Não sei quanto tempo demorei e nem que horas eram, mas foi sôfrego.
4 - Se perdesse meus olhos, a música seria meu reduto. Minha profissão também, haja visto que o que escolhi para viver depende do que olho. E o que temos, profissionalmente, para os cegos que nascem cegos? A música deveria ter mais deles.
obs.: As imagens que criamos quando temos total atenção ao que ouvimos são criativas demais, é um bom exercício de criação.
5 - Nessa ordem: olfato (nunca me serviu muito, já nasceu zoado), paladar (aproveitava e virava vegan), fala (não nos damos conta da nossa capacidade de expressão sem o auxílio de nossas cordas vocais), tato e, por último, a visão se pudesse escolher o que perder.
6 - A televisão é redundante. O cinema, fortaleza da imagem, deve com obstinação contar por imagens pois as palavras, ai as palavras, não dizem tanto e se acham a bola da vez, rebarbativas e carentes.

4 comentários:

Guilherme Pera disse...

Já diria o poeta: "Escrever é a arte de cortar palavras".

Ai as palavras.

Sarinha disse...

Sempre passo por aqui, sempre leio aqui, sabe?
Só que hoje eu decidi te dizer que seus textos fazem bem!
"As mãos são o prolongamento do coração". Bem lindo!
:*!

Maurício Campos disse...

Valeu, Sarinha! Tinha perdido o endereço do seu blog aqui, agora me lembrei qual era, vou voltar a ler.
Beijo

dansesurlamerde disse...

eu ando no exercício forçado (mas temporário, graças!) de fazer as coisas sem a mão esquerda. nunca pensei que ela fizesse tanta falta.

gostei daqui.

abraço.