segunda-feira, 28 de março de 2011

Perdoemos

Lembra-me meu avô e homens como ele, homens duros, inflexíveis. Minha mãe foi quem me contou, aliás, penso, não sei se foi ou se a música é tão fidedigna que incorporei à ele. Poderia jurar que o vi, perto da churrasqueira na chácara, bêbado, tomando seu whisky a lhe corroer a já delgada parede estomacal, os olhos embotados de lágrimas, Rabito - seu cão companheiro - deitado no chinelo franciscano e meu vô a bradar My Way. Se me lembro bem, a vizinhança reclamou.
Frank Sinatra seria John Wayne se pudesse ter nascido oito anos antes. São símbolos do máximo limite da "subordinação" do homem à arte, "o resto é afetação", diriam os homens severos. Para os interioranos, a viola e para os cariocas, o samba choroso. My Way, imortalizada por Sinatra é a música mais afeita a senhores como meu vô, independente da região nascida, do país nascido. Senhores que veem Faroeste no sábado, enquanto tomam vinho e fazem churrasco ao som do vinil de Barry White. "Na verdade My Way é a única música já feita, o resto são melodias, letras e instrumentos", endossariam. Consigo imaginar os nórdicos cantando, mesmo um indiano.
Contudo, faço desse texto agora um mote sensibilizador, uma súplica. É que peço encarecidamente para que não julguem meu vô austero por demasia, rígido tanto, preconceituoso e conservador até, tampouco julguem Frank Sinatra, Elvis Presley, o homem de Edifício Master, Carreras, Domingo, Pavarotti, os japoneses nos karaokês da Liberdade, o homem que caminha por Recife em My Way de Camilo Cavalcante. Essa é a elegia sincera do percurso de vida desses homens que dedicaram suas vidas a realizar suas metas, a serem simples por mundanos demais. Presos ao que é terreno, pois é só no que acreditam. Preocupados em chegar à hora, preocupados com quantos quilômetros foram rodados. Perdoemos esses homens que cantam escondido, esses homens que choram no sigilo. Esses varões, filhos prodígio, na sua maioria prematuros e primogênitos. Perdoemos também por eles estragarem seus filhos com lascas de tacanhez.
Tenho certeza que se tivessem a chance - apoteóticos e apaixonados por um fim de história redentor- cantariam uma estrofe de My Way, orgulhosos, antes de morrer.
O épico dos homens severos. Epifania-síntese da vida dedicada em cada bronca, em cada sapo engolido, em cada demonstração de que são homens fortes. Uma vida dedicada a dizer, ali ao pé da cova - que cavaram eles mesmos por não confiar no trabalho de outrem - que "não fiz por mal, eu só precisava sobreviver".
Perdoem meu vô, por favor.

6 comentários:

dansesurlamerde disse...

eu perdôo teu avô. pelo texto bonito do neto, eu perdôo.

beijo.

Maurício Campos disse...

assim, sim. Obrigado.

dansesurlamerde disse...

Maurício, na verdade foram dois filmes: Em um mundo melhor (Haevnen) e Fora da Lei (Hors-la-Loi). ambos muito bons. beijo.

Danilo Brito Steckelberg disse...

Cara, foi um monte de coisas estranhas. Entrei aqui, e casa nova, móveis novos, diferente. Não visitava aqui há tempo pacas.
Li este texto estava escutando "Canto para minha morte", e depois "Sapato 36". Pareceu tudo casar tão bem... bons tempos em que tudo me saía em poesia e que altos papos rolavam entre blogs. Mas há de voltar. Tudo volta. The Mars Volta.

... disse...

só se perdoa o imperdoável, meu caro. seu vô, a gente entende.
belo texto aliás.

Maurício Campos disse...

the mars volta! aohkjhfkjshdkjfh


nem tudo volta, mas isso há de voltar, Técão. Quando nossos filhos (terei?) acharem brega seus pais escreverem em blogs...