domingo, 16 de janeiro de 2011

Perdoem-me vocês demasiadamente humanos ou por quê visitei a Bolívia

Perdoem-me vocês demasiadamente humanos. Há um tempo não acompanho jornais e sei o que acarreta minha renúncia. O que me vem aos ouvidos é só o que tenho e se não me chegasse já me bastaria. Ainda que chamem-me niilista, chamem-me ermitão, chamem-me obscurantista.
Eu me entristeço com os deslizamentos do Rio de Janeiro, não mais que isso. Desculpem-me aqueles que perderam parentes por lá e que estão sofrendo tanto, sinto muito por vocês e seus familiares.
Caros, recorramos aos orientais e ao cinema de Werner Herzog. Lembremos de que somos carne e carne um dia apodrece ou é abatida. A natureza é maior que nós, os fenômenos naturais são maiores que nossa cabeça animal. Subjugamos a Natureza, contudo essa ostensividade nunca nos fez dominá-la como se adestra um cachorro.
Esse tal modo de pensar sobre a simplicidade da morte é uma consciência de uma ordem preexistente no mundo: somos carne. Lembremos do provérbio hebraico: "Receba com simplicidade o que lhe acontece"; receba, por exemplo, a vida com mais simplicidade. Você poderá morrer com a brisa que entra pela janela, ou tropeçando em uma casca de banana, ou quando o touro bate na gente.
Horror é outra coisa, horror são 6 milhões de pessoas numa vala porque não tem olhos azuis. Essa tragédia estava escrita e estará ulteriormente pois sempre estará. Não são os sinais do Céu, ainda que queira encarar dessa forma, como uma chance de recomeço da sua vida - e eu mesmo acredito nessas irrealidades para poder viver. É uma força física que nunca se deu conta da sua vida (logo você, hein, que já conquistou tanto). Não é sobre ser partidário do PV e sobre querer abraçar uma árvore, mas essa compreensão a que os ignorantes chamam de maldade, é linda; não sou o profeta, mas sinto o pulso dos tempos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sobre esquecer

Depois de escrever uma cena ou descrever uma personagem tudo me desvanece como um vapor d'água sem deixar vestígio até o dia seguinte. Não reconheço mais o que escrevi quando termino um trabalho. Esse é meu talento: esquecer. Um homem de memória curta. Assim suponho que o criador é aquele capaz de fazer do pouco, muito. E depois esquecer.

Na verdade as palavras nem são tão bonitas, mas me chamou a atenção pelo momento e pela referência. Isso aí está em Da Criação ao Roteiro de Doc Comparato, o guia do guião. Conversava com o incansável Técão sobre como isso está ao meu favor, isso de esquecer. Já quanto a defender minha obra, vender meu peixe, recitar uma poesia minha, e outros argumentos que envolvem o falar e não o escrever, sou desprivilegiado.
Vem também daquela conversa, Lupe, de por que você é assim? Ah, intenção e gesto são distantes, meu caro.
Mas eu me reinvento, não tem importância ser só, aliás, só ser.

Eu já dizia, olha aí:
O artista

O artista é o homem que esquece. É aquele que inventa porque não lembra que já existe. Ele não se prende ao mundo, porque esquece que existe mundo. A sua inocência cândida é o seu projeto ardiloso. O artista se revisita inúmeras vezes porque se esquece do que criou. Por isso ele grava, grafa, grada, aos poucos, para que um mínimo de memória lhe reste.
O artista é um homem velho com Alzheimer. Remotamente se remete ao passado, mas não faz ligação com o presente. O passado lhe salvaguarda a linguagem: o único meio que tem para se expressar no presente; mas ele não sabe mais usar, então subverte-o. A diferença é que ele não tem Alzheimer.
Escrito em 23 de junho de 2010, aqui.