quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As pessoas encasmurradas, carrancudas a passar. Não sei se rio da vida ou das preocupações delas. Sou mais eu e minha eterna infância.

domingo, 19 de setembro de 2010

O filho do demônio

Naqueles dias que se vai ao cinema só, acontecimentos especiais são reservados a nós ou estamos como que nas garras de uma mulher ardilosa ou como que deixando-se enganados pelo ilusionista? Qual seja, ao meu lado sentou-se Dennis Hopper.

O cinema estava lotado e sem escolhas, sentou-se ali. Olhei para os lados, como se tentasse procurar outra pessoa mais adiante na fileira, e certifiquei-me de que era ele. Minha vontade primeira não foi a de abordá-lo com meu bloco de anotações e minha caneta pedindo autógrafo. Respirei fundo. O medo do muleque mais velho que te bate toda vez que você passa na rua dele, o medo daquele cara do morro que vem vender seu pó na frente da escola à noite, carregado com uma arma. Não como cantar a menina mais bonita da escola, tampouco o medo de pedir um autógrafo para um ídolo. Afundei-me na poltrona, liberando o encosto do braço para ele.

Há uma semana atrás eu havia assistido O Amigo Americano de Wim Wenders. Nunca na história do cinema, houvera um olhar tão morto quanto o de Dennis Hopper. Nenhum vilão, nenhum. Nem vampiro, alienígena, nem Bob de Niro em Cabo do Medo. Não é um filme de terror e nem é de todo vilanesco o seu papel, maniqueísta assim. Contudo, me faria suplicar pela vida sem balbuciar sequer uma palavra. Charles Manson teria um ator à sua altura para interpretá-lo no cinema. Então revi Veludo Azul e Easy Rider - Sem Destino e vi pela primeira vez Mad Dog Morgan. No meio do deserto australiano, naqueles filmes de baixo orçamento e muito mau gosto (ozploitation), lá foi o filho do Cão representar. A demência deste cinema e a psicopatia dos olhos de Hopper, a porralouquice de ambos.

Em Easy Rider, pacífico flowerpower, o hippie de Fonda não mete medo como o de Hopper. Ele é sinistro, soturno. Nem Marlon Brando em Apocalypse Now, dava tanto trabalho no set como o filho do Caramunhão. Sua vida se misturava à arte, sua persona ao personagem. Os estúdios não queriam um velho drogado e irresponsável para atrasar a produção; talvez pudesse ter sido mais vilão, mais vil, que Christopher Lee, Boris Karloff, Bela Lugosi, Vincent Price, etc. Ou só ter o mesmo prestígio, mas esses atores só são temidos porque vestiram uma capa.

Fascinado pelo medo, em síndrome de Estocolmo, recebi meu algoz ao meu lado. Segurava um saco de pipoca nas mãos. O burburinho na sala ressoava e escondia os barulhos que minha barriga fazia. E escondiam o barulho da sua mandíbula mastigando. Seus gestos mais miúdos me intimidavam. Era estar com uma navalha na garganta, sendo fuzilado porque aquele olhar inexpressivo embriagado de rum.

Foram como duas horas de tortura. Não consigo, ao menos, me lembrar o nome do filme. Quando amassou o saco de pipoca, reverberou dentro de mim, estrondoso. Fazia eco no meu estômago. Sugava o canudo e retumbava em mim.

Desceram os créditos finais e eu imóvel. As pessoas saíam, ele repousado ao meu lado; lia todas aquelas letras na tela. A canção final, muito feliz, me agoniava. Pegou o saco amassado, o refrigerante vazio e levantou-se. Fechei os olhos para que não cruzássemos os olhos. Repetia em minha cabeça que fosse embora logo. Senti um frio na espinha quando me cutucou. Antes de me matar, pediria mil favores. Mataria-me de pouquinho em pouquinho. Uma luz na minha cara. "Senhor?... Senhor?...", perguntou o lanterninha do cinema.

Foram dias sem dormir. Vigiava a persiana horas à noite numa paranóia louca. Foram exatamente 9 dias, pois graças ao bom Pai, Dennis Hopper morreu de câncer de próstata certa noite.

Ainda continuo a ver seus filmes com o assento ao meu lado sempre livre.

sábado, 18 de setembro de 2010

Tardes insossas. O que resta: criar. É triste gostar mais de mim do que do mundo, só sentir-se confortável em mim.
Olha eu, de novo, subindo a masmorra.

Pala minha

Pala,
para lavrar:
palavrar.