sábado, 29 de maio de 2010

Questionário

Sempre quando eu via o Actor´s Studio eu ficava sonhando responder ao questionário de Bernard Pivot que rolava no final do programa. Não é aquela meleira de entrevistas ping-pong de revistinha Capricho e Tititi, é filosófico, faz pensar, faz lembrar, pois muitas vezes nunca nos perguntamos isso. É claro que daquela época pra cá eu não tenho estado pensando nas respostas, tentei me pegar de surpresa e escrever de bate-pronto às perguntas.
Daí tenho estado bolado com isso de não ter mais interesse nenhum em atuar, de me emancipar de tudo e ter as minhas ideias como prioridade, não as de outrem, não ser outros. Aquele lance que o Fernando Pessoa e o Raul Seixas falavam: não sou poeta, não sou cantor, eu sou é ator. Na verdade, acho que com esse post o blog é legitimamente parte do que eu não quis pra ele. Mas ele criou vida e, mais que isso, eu pude notar que eu sou um ególatra; pude notar que personagens são difíceis de se sustentar por muito tempo e eu, ator do mundo, suplantei eles porque os interpreto para que me refresquem a memória de quem sou. Claro que se você for o Charlie Sheen, fica fácil ser o Charlie Harper - que são a mesma pessoa. Pois agora tô me dando a chance de responder e de praticar um pouco do meu ego aqui mesmo (porque essa mania de ficar me explicando?). Aí vai:

-Qual a sua palavra preferida?
Lírico.

-Qual a palavra de que menos gosta?
Tem fases: já odiei o "para com", já odiei tudo que é gíria em inglês, mas eu acabo me entregando. Atualmente tenho alvejado o "pseudo".

-O que te excita?
Criar.

-O que não te excita?
Rotina.

-Que palavrão mais gosta?
Desgraçado - sem a culpa cristã.

-Que som ou barulho mais gosta?
Som de água caindo. Pode ser uma cachoeira, uma bica ou a torneira. Desde que caia com força; torneira pingando, não.

-Que som ou barulho menos gosta?
O jeito que algumas pessoas mascam chiclete. Há pessoas que sabem mascar e outras que não. É por conta dessas que eu nem gosto de chiclete, há anos já não masco.

-Que profissão gostaria de ter, além da sua?
Eu não tenho uma, mas tirando a que eu devo vir a ter, seria quadrinista e ilustrador.

-Que profissão não gostaria de ter?
Funcionário público ou escritor de discurso político.

-Se o céu existir, o que gostaria que Deus dissesse quando chegasse lá?
E você aí todo preocupado se as pessoas sentiriam sua falta... basta olhar lá pra baixo, meu caro, veja como estão.


domingo, 16 de maio de 2010

Sequestrei minha liberdade
tranquei-na no porão
deixo uma janelinha aberta
por onde a alimento de pão, circo e madrugadas

lá entra luz de vez em quando
na pele dela tão delgada, tão alva
o sol castiga com queimaduras
imediatas de terceiro grau

Uma vez por dia eu a deixo sair
mas com aqueles olhinhos já embotados
aquela carinha já amedrontada
não quer brincar mais

Agora estou diligente em adestrá-la
me dá patinha, abana o rabinho
pula
deita
finge de morta
até morrer de vez

sábado, 15 de maio de 2010

Valsinha procê

ainda que desdiga,
vou com a sua alvura para as palavras
dizer bem rente, bem claras
e vá que me desdiga
'ah, tenho mais o que fazer nessa vida',
sei dizer
mais que você
[e quanto é difícil dizer]
tudo bem, ainda que não possa crer
sabe?
bem que eu quero seu bem querer

(da série de poesias alcoólicas)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poesia

Sim
plicidade

Tanto faz

Abraço o acaso, sem por acaso.
"Morte à apoteose!". Mas ela não morre. Ela persegue mais que a morte persegue. Essa vontade fudida de fazer da vida um circo, de ser personagem de tragicomédias.
Essa palavra inflamada, drenar. Essa crônica jornalística, transformar em conto. Ser poesia.
Essa fala mole hay que endurecer pero sin perder la ternura.

Tanto fez

Abraço o acaso, sem por acaso

"Morte à apoteose!"
Mas ela não morre.
Ela persegue mais que a morte persegue.

Essa vontade fudida de fazer da vida um circo,
de ser personagem de tragicomédias.

Essa palavra inflamada, drenar.
Essa crônica jornalística, transformar em conto.
Ser poesia.
Essa fala mole hay que endurecer pero sin perder la ternura.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

junta isso tudo aí, faz um amontoado de seu passado...não é perigoso que o vento leve de tão pouco, de tão leve?
o que você vai ser quando crescer? aliás, se crescer?
desculpe colocar vocês a par, mas eu preciso mais amar.
é tanta vontade, tanta pouca força.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lápides

Lápide 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

Lápide 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

(Paulo Leminski)


Diálogo no espaço

- Obrigado por nada - disse o astronauta assim que avistou o espaço sideral.
Ele não foi ouvido, mas pode jurar que o vácuo replicou-o:
- Indisponha.


Luz

Hoje o meu relógio biológico faleceu

o tempo psicológico (dizem assim) ditou e há dito
agora que são 01:56h da madrugada
é hora de visita de fadas

sexta-feira, 7 de maio de 2010

360°

João procurou Maria para se achar. Maria era resoluta, resguardo, segurança, firme como ponta-de-lança. Ele passou 3 meses com ela, durmiam juntos, acordavam juntos. Maria a todo tempo lembrava João: você é bom nisso, você é bom naquilo. Sempre conversando sobre João. Um dia ele saiu, convicto, pela porta da frente e nem olhou para Maria que ficou na porta olhando-o partir. Ficou sem saber o que era. Se ela era ela ou se ela era os outros. Maria foi procurar José.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Não é que eu sumo de mim, assim, voluntariosamente. Já pensou que enquanto você está me procurando, eu também posso estar? Se me achar por aí, traga-me de volta, esse bêbado sem nome se equilibrando nas calçadas nem sabe procurando por o quê.