sábado, 27 de março de 2010

Comprei uma boa máquina fotográfica para gravar o mundo
mas veja você, o mundo não cabe na tela

Comprei um caderno para gravar o mundo
mas veja você, o mundo não cabe numa folha

Comprei o mundo e enjoei
achei minha máquina e meu caderno num baú
daí fiz outro mundo
e não comprei mais nada

segunda-feira, 22 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Prelúdio

Hoje tudo vai ruir

tenho a certeza de Nostradamus


trazendo o que já estava anunciado, uma frente fria virá

ricocheteando nos muros, paredes, postes de luz

congelando tudo

as palavras vão ficar alojadas na garganta trancada

vão arranhar, cortar, depelar todos os cílios da traquéia

quentes, entranhadas, enjauladas, as palavras

mas a boca fria, mármore

até o incidente climático passar

e as gargantas, desejosas, espumarem as palavras

cuspidas, escarradas

lançando no mundo a poesia mais nojenta e introspectiva dos homens

lançando no mundo o âmago amargo das entranhas

só o avesso, o homem como se é

segunda-feira, 15 de março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Sobre eu e você

Um desabafo. Há muito parei de ver ou ler jornais. Traumatizei-me um pouco com o jornalismo, quis (quero) entrar em um mundo cheio de ideias e viver de fantasia, quero chafurdar nisso tudo. Fui (sou) covarde? Talvez. Algumas drogas talvez já me extirpariam um pouco de realidade. Estou impotente diante das agruras do mundo; não sei o que fazer. Já disse e reitero, não espero mais nada do homem. Continuo a me assustar sempre mas já sem me surpreender.
Foi assim, assustado, que fiquei sabendo da morte do cartunista Glauco na tarde de sexta. Os jornalistas, portadores de grandes chaves (os chavões) para abrir um depósito de incertezas, confundiram assassinato com assalto. Como se confunde sunita com xiita e Santo Daime com macumba. As primeiras notícias, nada apuradas, atiram como isca gorda para o mar do imaginário popular. Não foi isso, não. O tal Carlos Eduardo não é um assassino nato, não nasceu com sangue nos olhos - e quem nasce? - ele é daqueles de personalidade ímpar. E são tantos os que conheço assim. De todos esses por nenhum eu coloco a mão no fogo.
Conheci Carlos Eduardo em 2006 ou 2007, eu acho. Malhávamos na mesma academia e trocávamos alguma ideia ou outra. O pai dele morava em Goiânia e inclusive também malhava nessa academia. Lembro de me contar sua primeira prisão (e não sei se a única) quando foi flagrado com um cigarro de maconha em Pirenópolis. Lembro de me contar que era um gordinho de São Paulo e que já fora alvo de chacota. Conseguiu emagrecer quando começou a fumar uns. Tudo certo até aí, era um classe média alta bem comum: morava com o pai, estudava pouco e fumava muito. Ele nunca fora muito forte e nem ganhava tanta massa, mas puxava peso com diligência, com rigor espartano. Gritava com vigor ao puxar os aparelhos, tinha raiva nele. Malhava pra ser Mister Universo aos olhos de quem via.
Conheci várias pessoas na infância que já foram caçoadas pelos amigos e que encontraram na academia o ofício da vingança, a resposta pra seus medos. Quase caquéticos quando muleques e infladosna adolescência.
Já tomei cerveja com centenas de Carlos Eduardos, todos diriam ser Jesus Cristo. Como detê-los? A psicanálise explica, a arte enaltece, a polícia age.
Meu irmão, estão saqueando os supermercados no Chile. Estão escondendo em suas casas, por vergonha dos outros, mutilados no Haiti. Meu irmão, atiraram no Mário Bortollotto e, é assim, ele continuou o mesmo. Porque tudo é o mesmo. Eles vão continuar atirando. A gente vai continuar morrendo. Eu vou continuar chorando. Mais coincidências virão e essa bosta vai sair no jornal e eu vou limpar a bosta do meu cachorro com isso. Os jornalistas vão continuar tentando seus furos de reportagem. Vão continuar fazendo listas de Dez Mais. Vão continuar falando de tudo com a propriedade de um doutor e a experiência de um macaco.
Não tenho nada contra humanos, só queria trocar uma ideia com o cara que cortou os rabos e os ensinou a falar.

Poema do jornal
Carlos Drummond de Andrade


O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.


Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Meliante

O Guarda Belo deu o flagrante. Jogou o spray dele no chão, mandou colocar as mãos na parede - estava com a arma em punho - e gritou:
- Gracinha, hein, malandro! Pixando os muros da cidade...
- Ia enfeitar a cidade, Seu Polícia.
- Pixando um muro?
- Sim.
- Quem você pensa que é?
- Eu falo com as pessoas me expressando nesse muro. As pessoas não andam conversando sobre o que sentem. Sou o que chamariam de poeta ou vagabundo. Pra você eu sou um meliante, apenas.
- Filho-da-puta, com quem você acha que está falando?
- Com todos vocês, com todos vocês.

quarta-feira, 3 de março de 2010

quando minha veia poética
estourou ela virou pra mim
e disse "deixa sangrar"

(Nicolas Behr)