sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Conversa de boteco

- Vou tentar deixar mais claro: pensa só, a gente tá aqui de bobeira e entra o Jack Nicholson por aquela porta.
- Como assim, o Jack Nicholson nessa bodega?
- É, porra.
- Ah, não. O Jack Nicholson você foi longe demais.
- Abstrai um pouco, porra. É só pra ficar mais claro o raciocínio...
- Num dá. Desculpa, num dá. O Jack não frequentaria um bar pé-sujo como esse daqui. Ele é macho, mas tem classe.
- Beleza, então. Vou pegar um ator brasileiro: o Selton Mello entra ali.
- Eu quero te ajudar, mas o Selton num é macho igual o Jack. Tô falando de cabra macho! Ator macho é Robert de Niro, Al Pacino, tem agora aquele... aquele Christian Bale, tem o Sean Penn...
- Não, o Sean Penn, não. O Sean Penn fez o "Milk". Agora quê que tem o Selton, ele é macho pra caralho, porra. Até pegou a Luana Piovanni.
- Ah, já ouvi umas histórias por aí que ele... ah, deixa pra lá. Mas o macho que a gente tá falando num é o macho pegador, se for assim até o Jesus Luz é pegador.
- Tá, tá. Esquece todos que eu disse, me lembrei do cara perfeito pra exemplificar minha tese. Ali naquela porta entra o Paulo César Peréio. Se encaixa em todos esses quesitos de macho alfa.
- Ah, o Péreio é macho. Se bem que usa lencinho e é gaúcho, mas vai...
- Beleza. Entrou o Peréio e só tem nossa mesa habitada aqui, todas as outras vazias. Ele num vai sentar no balcão pra conversar com o Adolfo, ele chega até aqui e puxa uma cadeira. Não pergunta se pode nem olha pra gente. Olha pro Adolfinho e brada: "Porra, Adolfo do Caralho, traz um copo pra mim, cacete!".
- hahaha... você sabe aquela história do Peréio, né? Ele tava com uma das trocentas mulheres que ele teve e os dois brigavam muito. Um dia, já enfastiada de tanta discussão, a mulher dele pergunta, "Ô Peréio, porque você faz isso comigo? Num consigo entender, viu...Num sou mulher pra sofrer assim" e tal e coisa... No que ele me responde uma das coisas mais geniais que um cara macho, mas macho sem essa de ficar socando tudo que se move, um macho de coração mesmo, ele fala: "Porque eu te amo, porraaaa!". Hahaha!
- Hahaha, genial, genial!
Os dois caem na gargalhada. O primeiro continua:
- Pois então, tô falando é de caras assim. Esse tipo de macho mesmo. Ele sentou aqui, tomou o primeiro gole e começa a conversar. Bicho, se o Peréio sentar aqui e tomar uma breja com a gente ele vai começar a falar e você nem vai querer me ouvir mais, num vai dar um pitaco: ele vai falar, falar, falar, deitar o cabelo mesmo. Porque esse tipo de cara tem o dom. Esses caras contam uma história e você vai achar que ele é o personagem principal de um livro que o mundo escreveu. O cara vai te calar a boca. Você nem lembra de tomar cerveja mais, as cervejas que vão descer aqui são só pra ele e você vai pagar com gosto enquanto seu copo cria dengue. O cara é entretenimento puro, é um showman. Mas por que eu tô dizendo isso tudo? Eu tinha um pouco de asco desses caras. Falar a verdade ainda tenho um pouco. Eu deixaria o Peréio falar à vontade aqui, mas ao chegar em casa eu ficaria um pouco puto.
- Mas por quê, bicho?
- Ah, você sabe. Esses caras são os que, na infância, xingam o cara de maluco porque ele fica na dele e pensa demasiado, chamam o outro de quatro-olhos, o outro de gordinho, o outro de mais feio, orelhudo, são os mais velhos que tiram uma com a cara do irmão caçula...
- Daí você levou pro pessoal só porque é caçula...
- Mas a opinião é minha, porra! É óbvio que é pessoal! O fato é que todo mundo já sofreu um pouco, todo mundo tem um primo mais velho sacana ou um tio capeta, mas pode ver, os que são poetas são sempre os que sofreram um cadiquinho mais. Presta atenção nisso, cara. São aqueles que tragaram alguma dor, que se voltaram para si pra curar uma chaga cavada por outra pessoa.
- Discordo. Porra, eu sou poeta e num sofri nada, cara. Minha vida é um grande passeio.
- Ah, vai te fuder, vai. Vai ficar me interrompendo pra falar uma ladainha dessa? Você é o maior sentimental de todo o Bairro da Balbúrdia e me vem com essa?
- Tô falando, cara. Eu sou assim porque sou assim, nasci desse jeito, ninguém me fez sofrer muito.
- Tá bom, e quando roubaram seu lanche na quinta série?
- Ué, deixei de comer, só isso.
- Hahaha, você tá variando. Mermão, você ficou choranto pra Tia Gleice o resto da aula todinha até ela te pagar um lanche! E quando a Cláudia te largou? Parecia uma moça choramingando! Num me vem com essa... E outra, esse sofrimento pode ser muitas vezes causado por outra pessoa, mas não de forma malévola. Se o pai do cara morre, nem pai nem filho tem culpa disso. E a dor é só do filho.
- Que seja, continua essa merda de teoria sua.
- O Peréio, que pelo jeito sofreu pouco, é um poeta. Um poeta de marca maior. A habilidade desse cara pra falar já faz das palavras dele uma poesia. O cara é o Camões de porre. Só que ele não é o tipo de poeta que escreve, é o poeta da fala. Os poetas que falam são caras amados por todos, tem carisma mesmo, num tem como você desgostar. Esses caras, vá lá, podem até saber o que é sofrimento, mas não sabem sofrer. Sofrer é um dom. O outro lado são os poetas que escrevem ou desenham ou filmam, os artistas. Esses, ao invés de sentarem aqui e começarem a contar seus causos, eles falam através da arte e o público deles é como nós dois aqui ouvindo o poeta Peréio. Eles não fazem da dor uma história pra boteco, eles fazem muito mais. O Laerte, porque ele é deus pra mim? O cara perdeu o filho e começou a fazer os quadrinhos mais loucos que o mundo já viu. Ele não parou de desenhar, bicho, ele transformou a dor dele em tirinhas.
- Mas, sei lá, é se o Péreio também gostar de escrever? E se ele sofreu pra caralho?
- Tudo bem, que escreva, que tenha sofrido, mas ele nunca seria reconhecido por isso. O cara nasceu pra ser o ator cafajeste, da voz grossa que deixava as menina até vesga. É como o Edmundo comentar jogos, porra, ele é o Animal, cara, ele mete gol, ele num fica de conversinha. O Jô é o contrário, imagina se ele desse uma de querer escrever livros existencialistas? O cara é o Jô, os livros dele não são pra serem levados à sério. Ele é filho de vó, cara. Nunca viu sofrimento. Há ainda aquelas pessoas que se encaixam nos dois perfis, porém são muito poucos e mais, o mundo é maniqueísta, cara... Ou o cara é o poeta que fala, ou o poeta que escreve.
- E o Woody Allen?
- Ah, o Woody Allen tá mais pra Peréio. Mas equilibra bem os dois.
- É, não sei se ele sentaria num bar. Ele é o tipo que toma capuccino em algum Café. Mas e o Walter Salles que é um riquinho de merda e fez dramas que fazem até um caminhoneiro chorar?
- Sabe sofrer. Tem sensibilidade, cara. O mundo toca ele, ele é poeta que escreve. Pra terminar esse assunto, então o que eu tava querendo dizer esse tempo todo é que os poetas que escrevem demoram mais para aparecer. Geralmente estão chafurdados dentro de si, daí um dia você empresta seu violão pra esse cara e ele vira o Bob Dylan, sacou? O cara mostra pra que veio, passou a vida meio mudo e a arte deu voz pra ele. A poesia, cara é dizer para si: pode passar. É aceitar-se como sócio do clube que você é o próprio presidente. A poesia é a humildade do reconhecimento, é escancarar para qualquer um a dor e a delícia de ser o que se é. É a forma mais próxima da franqueza. É você abrir suas tripas, puxar seu coração, pulsante, sangrento, e entregar na mão de uma pessoa dizendo: é isso o que eu tenho pra te dar, seu puto. É só o que tenho. Você entende a dor de parir um poema?
- Acho que sim, cara.
- Imagina pegar toda a dor da sua vida, todos seus momentos que esteve só e fazer disso algo belo e dar de presente pra alguém...
Encheu seu copo e tomou de virada.
Seu amigo, pensativo, disse então:
- Você se encaixaria em qual grupo?
- Poetas que escrevem e aventureiro no universo dos poetas que falam. Até tento ser desses que chamam a atenção quando sentam pra tomar uma gelada, e confesso, tenho um relativo sucesso, mas bem aquém do que eu poderia desejar. Eu não sei o que dizer na frente de uma câmera, mas me dê um papel e algumas horas só e você veria o que eu posso fazer. Posso não ter sofrido tanto, eu não sou Frida, nem um remanescente da ditadura, mas eu sei sofrer, mano.
Ficaram calados. O amigo quebrou o silêncio:
- E eu... em qual grupo você me encaixaria?
- No volumoso grupo dos caras que tem que sofrer mais que os outros.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mural de Mensagens

Lembrar de mandar o Técão tomar no cu porque eu tô com saudade dos textos dele e de tomar uma com ele, mas ele não tem tempo e mora longe.

Laerte


Garimpei aqui e me dei conta de que não tem nenhum quadrinho de deus (que ultraje!). Esse aí é de 02/02/2010, na Folha de S. Paulo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sentir

Minha memória me trai
veja, não lembro mais do que eu ia falar
mas sei que estou pronto para sentir todos meus pelos se eriçarem
sempre

Mural de Mensagens

Saí pra comprar cigarro. É picado, eu volto logo, sério.

Mural de Mensagens

Lembrar de voltar a ser o que era para depois lembrar-me de esquecer.

Da morte

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?

Tradução de XXXVI, poema de "Livro das Perguntas" de Pablo Neruda.