terça-feira, 28 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

Sublime nela

Ele tinha a displicência que lhe é de direito. Ela gesticulava ao falar de tanta dor, falava com as mãos e as unhas gritavam nos olhos de Felipe. O rosto de Anabela empoçado, mas eram as mãos que lhe faziam vista. Enquanto ela gesticulava, maestrina, ele olhava as mãos bailando tango no ar. Ela levou-as ao rosto para enxugar as lágrimas e Felipe notou que chorava. "Há quanto tempo estaria chorando ela?". As unhas vermelhas combinavam com os olhos vermelhos de raiva.
Agradeceu por fazer parte desse momento. As agonias dela eram de uma beleza própria, mais, eram o sublime estarrecendo-o. Anabela trazia uma fotografia à mente e como se clicada, a cena lembrou-o a pensar, o contexto virou enquadramento, Felipe esqueceu de sentir e levou seus olhos para o rosto dela.
Ela o consultou aos prantos, procurando convalescença nas palavras dele:
- Felipe, pelo amor de Deus, o que eu faço?
- É uma situação delicada - respondeu ele do alto da sua previsibilidade.
Ela gemia por ajuda e enquanto chorava e olhava em seus olhos, naturalmente Felipe imitava seus gestos fazendo uma cara de dor e sofreguidão. A expressão era de consentimento. Mas não era compaixão, não era piedade, era o terror da beleza.
Ela pediu que ele a entendesse. Ela segurou seus braços fortes buscando sua força. Puxou sua camisa com força, amassando à rota. Debulhou no seu ombro e babou. Clamou por ajuda, decidida de que um homem como Felipe certamente poderia socorrê-la. Nem a tragédia da história relatada não o fez titubear. Estava firme de que não havia torpeza em não aconselhá-la, pareceria que estava surpreso pelos terríveis acontecimentos e o estado de choque o teria emudecido.
Ele não podia, continuaria lacônico fingindo entendê-la - talvez até a entendesse se as lágrimas não houvessem roubado toda a atenção. "Pois continue", pensou. Faria que sim, sim, não há maior beleza no mundo que uma mulher chorando.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pra você

Meu compadre Vinícius me mostrou esse trecho. Na verdade nunca li o livro, mas essa frase já me fez um bordão, não, não, melhor, um lema - que não queria ter que carregar. Adaptando de Marçal Aquino pra ficar justo, isto é, passando para o feminino

Gente como ela, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso ela poderia ter dito a ele. Mas nunca disse.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Poesia

Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Menina Mulher - Cochilei

Abutres têm o dom da sedução
Cuide-se
eles têm a lhe oferecer o dom de hoje
hoje
hoje já passou

[eu, pierrô]

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

(des)Informes

3 pensamentos de poesia que me invadiram hoje:

- É difícil levar poesia para as pessoas - quase todas mundanas. Sendo o arquiteto um poeta (o poeta mais concreto; que escreve poesia em tijolo), Brasília sempre será inabitável.

- A poesia (verdade) é a abstração do real. O real é a distração da poesia.

- Quando um burro fala o outro abaixa a orelha. Quando um poeta fala o outro levanta a orelha.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Como desgastar a dor, se não sendo
descontando nas pessoas ou escrevendo?

Orgulho de mulher

Firma o semblante, filha
arfa o peito
um samba nos quadris
ponta-pé direito, ponta-pé esquerdo, caminha reto
olhar de mula com tapa

faz de você mulher
olha pra frente e vai
manda teu rebolado dizer que tá em paz
que tá gostosa
que tá sozinha
que tá bem

diz pra esse canalha
com esse gingado
diz pra ele o que você nunca teve certeza
maquia teu orgulho, com razão

espezinha o coitado
com seu ar resoluto
e tua cabeça dura
diz sóbria,
fala o que toda mulher quer falar:
você acabou com minha vida, babaca.
Diz isso mas não conta o resto.
Maquia teu orgulho com a razão,
hoje você fica por cima.

Pontapé, pontapé, caminha reto
Sai feliz assim
com a cara sisuda
e o peito ruim
sai bonita
e sem mim.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Peco pelo falar.
Poesia é bonita pra quem é sádico.
Meu samba é Nelson Cavaquinho puro,
minha lástima é tal.

Pegue toda sua dúvida e enfie... na sua vida.
Ela é linda. Ela é sua.
Não divida, cultive isso, não acredite no cachorro, não acredite na igreja, não acredite na família, não acredite no amor. Morra sozinho.

Não tem porque dizer, eles não vão entender mesmo.
Porque escrevi? Para que você veja. A vida é doce, desde que não valha a pena.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As pessoas encasmurradas, carrancudas a passar. Não sei se rio da vida ou das preocupações delas. Sou mais eu e minha eterna infância.

domingo, 19 de setembro de 2010

O filho do demônio

Naqueles dias que se vai ao cinema só, acontecimentos especiais são reservados a nós ou estamos como que nas garras de uma mulher ardilosa ou como que deixando-se enganados pelo ilusionista? Qual seja, ao meu lado sentou-se Dennis Hopper.

O cinema estava lotado e sem escolhas, sentou-se ali. Olhei para os lados, como se tentasse procurar outra pessoa mais adiante na fileira, e certifiquei-me de que era ele. Minha vontade primeira não foi a de abordá-lo com meu bloco de anotações e minha caneta pedindo autógrafo. Respirei fundo. O medo do muleque mais velho que te bate toda vez que você passa na rua dele, o medo daquele cara do morro que vem vender seu pó na frente da escola à noite, carregado com uma arma. Não como cantar a menina mais bonita da escola, tampouco o medo de pedir um autógrafo para um ídolo. Afundei-me na poltrona, liberando o encosto do braço para ele.

Há uma semana atrás eu havia assistido O Amigo Americano de Wim Wenders. Nunca na história do cinema, houvera um olhar tão morto quanto o de Dennis Hopper. Nenhum vilão, nenhum. Nem vampiro, alienígena, nem Bob de Niro em Cabo do Medo. Não é um filme de terror e nem é de todo vilanesco o seu papel, maniqueísta assim. Contudo, me faria suplicar pela vida sem balbuciar sequer uma palavra. Charles Manson teria um ator à sua altura para interpretá-lo no cinema. Então revi Veludo Azul e Easy Rider - Sem Destino e vi pela primeira vez Mad Dog Morgan. No meio do deserto australiano, naqueles filmes de baixo orçamento e muito mau gosto (ozploitation), lá foi o filho do Cão representar. A demência deste cinema e a psicopatia dos olhos de Hopper, a porralouquice de ambos.

Em Easy Rider, pacífico flowerpower, o hippie de Fonda não mete medo como o de Hopper. Ele é sinistro, soturno. Nem Marlon Brando em Apocalypse Now, dava tanto trabalho no set como o filho do Caramunhão. Sua vida se misturava à arte, sua persona ao personagem. Os estúdios não queriam um velho drogado e irresponsável para atrasar a produção; talvez pudesse ter sido mais vilão, mais vil, que Christopher Lee, Boris Karloff, Bela Lugosi, Vincent Price, etc. Ou só ter o mesmo prestígio, mas esses atores só são temidos porque vestiram uma capa.

Fascinado pelo medo, em síndrome de Estocolmo, recebi meu algoz ao meu lado. Segurava um saco de pipoca nas mãos. O burburinho na sala ressoava e escondia os barulhos que minha barriga fazia. E escondiam o barulho da sua mandíbula mastigando. Seus gestos mais miúdos me intimidavam. Era estar com uma navalha na garganta, sendo fuzilado porque aquele olhar inexpressivo embriagado de rum.

Foram como duas horas de tortura. Não consigo, ao menos, me lembrar o nome do filme. Quando amassou o saco de pipoca, reverberou dentro de mim, estrondoso. Fazia eco no meu estômago. Sugava o canudo e retumbava em mim.

Desceram os créditos finais e eu imóvel. As pessoas saíam, ele repousado ao meu lado; lia todas aquelas letras na tela. A canção final, muito feliz, me agoniava. Pegou o saco amassado, o refrigerante vazio e levantou-se. Fechei os olhos para que não cruzássemos os olhos. Repetia em minha cabeça que fosse embora logo. Senti um frio na espinha quando me cutucou. Antes de me matar, pediria mil favores. Mataria-me de pouquinho em pouquinho. Uma luz na minha cara. "Senhor?... Senhor?...", perguntou o lanterninha do cinema.

Foram dias sem dormir. Vigiava a persiana horas à noite numa paranóia louca. Foram exatamente 9 dias, pois graças ao bom Pai, Dennis Hopper morreu de câncer de próstata certa noite.

Ainda continuo a ver seus filmes com o assento ao meu lado sempre livre.

sábado, 18 de setembro de 2010

Tardes insossas. O que resta: criar. É triste gostar mais de mim do que do mundo, só sentir-se confortável em mim.
Olha eu, de novo, subindo a masmorra.

Pala minha

Pala,
para lavrar:
palavrar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Não sou da rua. Tampouco da casa de frente à rua. Eu fico ali no meio, na calçada porque lugar de poesia é na calçada.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mural de Mensagens

Pode saber que receber uma mensagem ou uma ligação sua por mês é das 12 melhores coisas que acontecem no meu ano.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vou falar para aqueles que colecionam cenas e histórias do escatológico e da morte podre como se fossem selos. "Tenho todos os filmes que matam e tiram as cabeças. Tem cabeça decepada com machado, com cutelo, com navalha, com bambu, com o dente também - essa é ótima - e, inclusive, tem cabeça que o cara demora 5 dias para cortar na unha", diz o beira-psicopata. Pois, talvez se imbuídos de um manifesto-morte-como-balé que fosse subverter a ideia de morte, ou a ideia de moral cristã... não, vocês acumulam mortes e coreografias de mortes e estéticas da morte porque ela lhe cai bem. A cena coprofágica de Saló faz sentido se Pasolini fala; se vista dentro de um filme contra os nazistas. A cena da galinha também. Para um apache, o seu escalpo só faz sentido quando diz em que batalha ele o conquistou. O escalpo por si é um pedaço de cabeça.
Por favor, não me mostrem escalpos sem história. Não me mostrem "chuvas de ouro" ou qualquer uma dessas bizarrices se não há contexto algum. Não façam sexo sem preliminares, também. Não espetacularizem a morte por simples coleção - "esse filme tem mais mortes que esse". A banalização dela pode ser explicada, há ideologia quando se mata no cinema. O festival sangrento muito me incomoda quando se faz por fazer, quando isso não te incomoda mais.
Cara, nunca mais me mostre aquela cena. Quisera eu dormir sem ela. Os homens precisam de poesia.

domingo, 15 de agosto de 2010

Se Acnaton tivesse proposto que era preciso tocar o sol, aí os homens se queimarem, então, assim eles teriam aceito Deus, mas dizer para o homem que Deus está em em todas as coisas foi demais. "Como Deus não tem forma?", perguntaram eles. Peça para eu adorar um galho e adorarei, peça para eu adorar uma chuva e eu adorarei, peça para eu adorar um vaso sanitário e adorarei, mas não peça para eu adorar o nada. Pois até aqui vai a minha subserviência: aceito o chicote desde que me doa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Parte de um texto escrito há algum tempo (não é original mas é para ver se me inspira, Gê):

- Olha eu subindo uma masmorra, matando lembranças. Tentando escrever a obra-prima, mas palavras só funcionam com combustível. Uma centelha as atiça para a prolixidade. Mas se eu matar minhas lembranças vou escrever sobre o quê? Dar uma de Caeiro e abraçar a natureza? A natureza que se exploda, mano. Asfaltem a Amazônia, que seja! Há um brilho eterno de mentes sem lembranças. Essa brasa nunca apaga e continua a nos impelir a Ser. Ah, se eu pudesse não Ser! Se eu pudesse ser um passarinho. Ter que me expressar, ter que sentir. Se eu pudesse ser Caeiro. Eu não consigo esquecer.Para mim já está tão certo que palavras convecem só os bobos. Isso de escrever aqui é unir o inútil ao agradável. Existe por existir, como podia simplesmente deixar de ser. Mas inventou de existir e agora eu vou ter que incomodar. As palavras vão espumar pela boca num espasmo louco. Quisera eu sofrer de convulsão de poesia e morrer implodido pelo meu coração. Bate. Bate. Bate. Me humilha um pouco mais, faz eu escrever mais e mais e pensar que um fagulha incendiaria tudo ao meu redor. Dá-me mais poesia, me ensina a ser cada vez mais só. Bate, por favor, cada vez mais acelerado e me mata de lirismo. Faz da minha verborragia a minha hemorragia.
- Porque no fim tudo tem que morrer pra você?
- Cala essa boca.

Sem palavras

Esqueci as palavras por aí. Juro que essa e a outra frase, por obra do acaso, se organizaram assim, não é culpa minha.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Biloca

Algumas coisas como essas aqui tem me impedido de escrever. Tô com saudade daqui, viu.
Biloca, filme produzido especialmente pro Festival do Minuto. Saca aí, só clicar no "aqui" ali de cima!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mandril


Olha aí, saiu a revista Mandril!
A ideia é do meu amigo Patrick que me chamou pra fazer as ilustrações. O negócio criou corpo, tomou forma e saiu essa belezura que vocês podem ver aqui: Mandril.
Pra quem tem twitter, sigam aí: @revista_mandril.
Tô na página 2 (assinando como Mena), 8, 32 e 34.


A primeira de muitas!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O importante

É sempre assim, eu torço pelo Brasil como um medroso vê um filme de terror. Blasfemo contra esse Império Sagrado que é a seleção brasileira para os brasileiros. Digo que torço pela Holanda, que torço pelo Uruguai que nos tirou a Copa no Brasil e até, veja que pecado, pela Argentina - eu acho difícil mesmo torcer pra esse elenco robótico. É como um mecanismo de defesa, você vê um thriller de terror e tenta não se envolver no suspense. Acende a luz, se preocupa com as pessoas que passam pela sala, ri do monstro, diz que isso não é possível no mundo real... Mas quando vem o susto, você pula. E grita. E quando vem o gol, você pula. E grita. E quando vem o baque, você sente, cara. Quase chora. A densidade do espetáculo toma tudo.
Mas acaba o filme, acaba a Copa e a seleção perde. Foi bom, foi legal, mas eu não tinha nada pra fazer e tava passando esse filme no Telecine, acabei ficando por ali. Graças a Deus - aliás, graças a mim - sobra razão depois. O Brasil investiu nas quartas-de-final, como quem viaja no cruzeiro do Roberto Carlos na classe econômica. Diz que esteve lá, que viu o Rei cantar, mas viu de tão longe que era melhor olhar no telão. Já a Holanda comprou camarote e ainda visita o camarim dele no final, não quis poupar. Mas o importante é competir, né?
O que é importante, e eu nos meus argumentos contra a seleção já dizia, é que agora a imprensa - é pra isso que ela serve - tem de fazer pressão para que a Copa no Brasil em 2014 seja decente. Que os políticos roubem um pouco menos na construção dos estádios, que a infra-estrutura para esse campeonato seja pensada com planejamento urbano, que seja uma oportunidade de melhora do que vejo como o mais urgente problema do inchaço urbano, o transporte, e que no futebol, tenhamos um técnico firme mas não arrogante, um time criativo, um banco de reservas que não nos desespere. Perder a Copa no Brasil seria o fim. Tudo iria ruir. É preciso que a imprensa cobre no campo político e no campo de futebol.

Mas o que é importante mesmo é que o meu São Paulo pode ganhar a Libertadores. Espero que essa derrota não traga apatia aos brasileiros, que não influencie os jogadores. Porque até então acompanhar a seleção era bacana: toma umas cervejas, curte com os amigos, grita, quase chora. Mas se o meu São Paulo perde por conta do Dunga... aí, meu rei, cabeças vão rolar.

Agora na torcida pelo Uruguai. Tem o meu querido Lugano tricolor e o Forlán que joga demais (ainda vai fazer a vontade do pai e jogar no São Paulo, cê vai ver). O jogo de hoje foi o melhor da Copa. Se a mão de Maradona é a de Deus, a do Suarez é a de Zeus. Fé, Uruguai!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mural de Mensagens

Hoje é aniversário do Patel: ás do baralho, escravo da sorte, filho da intuição. Não é da rua, mas faz filosofia de calçada como se fosse dali. Das boas. Sabe pisar. Sabe ceder cigarro - assim se mede a chamada humildade do malandro. Sabe da vida com apenas 19 anos.

Feliz aniversário seu puto, muita poesia procê.

sábado, 26 de junho de 2010

Eu não escrevo em inglês. Não é porque eu não saiba falar a língua que lambe a mim e a toda essa cria subserviente, eu não escrevo em inglês porque eu não me sinto um. Eu não tomo chá. Eu tomo cerveja e empapuço sempre, mas continuo - é questão de costume.
abstendo-me das questões filosóficas para me entrgar ao pragmatismo. Pode chorar, vai. Eu não ando conseguindo nem arrepiar.

sábado, 12 de junho de 2010

Mural de Mensagens

Hoje eu completo duas semanas de namoro comigo mesmo. Tem sido ótimo, eu correspondo totalmente às minha expectativas e ainda sou bom naquilo. Beijo, amor.

terça-feira, 1 de junho de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

Questionário

Sempre quando eu via o Actor´s Studio eu ficava sonhando responder ao questionário de Bernard Pivot que rolava no final do programa. Não é aquela meleira de entrevistas ping-pong de revistinha Capricho e Tititi, é filosófico, faz pensar, faz lembrar, pois muitas vezes nunca nos perguntamos isso. É claro que daquela época pra cá eu não tenho estado pensando nas respostas, tentei me pegar de surpresa e escrever de bate-pronto às perguntas.
Daí tenho estado bolado com isso de não ter mais interesse nenhum em atuar, de me emancipar de tudo e ter as minhas ideias como prioridade, não as de outrem, não ser outros. Aquele lance que o Fernando Pessoa e o Raul Seixas falavam: não sou poeta, não sou cantor, eu sou é ator. Na verdade, acho que com esse post o blog é legitimamente parte do que eu não quis pra ele. Mas ele criou vida e, mais que isso, eu pude notar que eu sou um ególatra; pude notar que personagens são difíceis de se sustentar por muito tempo e eu, ator do mundo, suplantei eles porque os interpreto para que me refresquem a memória de quem sou. Claro que se você for o Charlie Sheen, fica fácil ser o Charlie Harper - que são a mesma pessoa. Pois agora tô me dando a chance de responder e de praticar um pouco do meu ego aqui mesmo (porque essa mania de ficar me explicando?). Aí vai:

-Qual a sua palavra preferida?
Lírico.

-Qual a palavra de que menos gosta?
Tem fases: já odiei o "para com", já odiei tudo que é gíria em inglês, mas eu acabo me entregando. Atualmente tenho alvejado o "pseudo".

-O que te excita?
Criar.

-O que não te excita?
Rotina.

-Que palavrão mais gosta?
Desgraçado - sem a culpa cristã.

-Que som ou barulho mais gosta?
Som de água caindo. Pode ser uma cachoeira, uma bica ou a torneira. Desde que caia com força; torneira pingando, não.

-Que som ou barulho menos gosta?
O jeito que algumas pessoas mascam chiclete. Há pessoas que sabem mascar e outras que não. É por conta dessas que eu nem gosto de chiclete, há anos já não masco.

-Que profissão gostaria de ter, além da sua?
Eu não tenho uma, mas tirando a que eu devo vir a ter, seria quadrinista e ilustrador.

-Que profissão não gostaria de ter?
Funcionário público ou escritor de discurso político.

-Se o céu existir, o que gostaria que Deus dissesse quando chegasse lá?
E você aí todo preocupado se as pessoas sentiriam sua falta... basta olhar lá pra baixo, meu caro, veja como estão.


domingo, 16 de maio de 2010

Sequestrei minha liberdade
tranquei-na no porão
deixo uma janelinha aberta
por onde a alimento de pão, circo e madrugadas

lá entra luz de vez em quando
na pele dela tão delgada, tão alva
o sol castiga com queimaduras
imediatas de terceiro grau

Uma vez por dia eu a deixo sair
mas com aqueles olhinhos já embotados
aquela carinha já amedrontada
não quer brincar mais

Agora estou diligente em adestrá-la
me dá patinha, abana o rabinho
pula
deita
finge de morta
até morrer de vez

sábado, 15 de maio de 2010

Valsinha procê

ainda que desdiga,
vou com a sua alvura para as palavras
dizer bem rente, bem claras
e vá que me desdiga
'ah, tenho mais o que fazer nessa vida',
sei dizer
mais que você
[e quanto é difícil dizer]
tudo bem, ainda que não possa crer
sabe?
bem que eu quero seu bem querer

(da série de poesias alcoólicas)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poesia

Sim
plicidade

Tanto faz

Abraço o acaso, sem por acaso.
"Morte à apoteose!". Mas ela não morre. Ela persegue mais que a morte persegue. Essa vontade fudida de fazer da vida um circo, de ser personagem de tragicomédias.
Essa palavra inflamada, drenar. Essa crônica jornalística, transformar em conto. Ser poesia.
Essa fala mole hay que endurecer pero sin perder la ternura.

Tanto fez

Abraço o acaso, sem por acaso

"Morte à apoteose!"
Mas ela não morre.
Ela persegue mais que a morte persegue.

Essa vontade fudida de fazer da vida um circo,
de ser personagem de tragicomédias.

Essa palavra inflamada, drenar.
Essa crônica jornalística, transformar em conto.
Ser poesia.
Essa fala mole hay que endurecer pero sin perder la ternura.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

junta isso tudo aí, faz um amontoado de seu passado...não é perigoso que o vento leve de tão pouco, de tão leve?
o que você vai ser quando crescer? aliás, se crescer?
desculpe colocar vocês a par, mas eu preciso mais amar.
é tanta vontade, tanta pouca força.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lápides

Lápide 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

Lápide 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

(Paulo Leminski)


Diálogo no espaço

- Obrigado por nada - disse o astronauta assim que avistou o espaço sideral.
Ele não foi ouvido, mas pode jurar que o vácuo replicou-o:
- Indisponha.


Luz

Hoje o meu relógio biológico faleceu

o tempo psicológico (dizem assim) ditou e há dito
agora que são 01:56h da madrugada
é hora de visita de fadas

sexta-feira, 7 de maio de 2010

360°

João procurou Maria para se achar. Maria era resoluta, resguardo, segurança, firme como ponta-de-lança. Ele passou 3 meses com ela, durmiam juntos, acordavam juntos. Maria a todo tempo lembrava João: você é bom nisso, você é bom naquilo. Sempre conversando sobre João. Um dia ele saiu, convicto, pela porta da frente e nem olhou para Maria que ficou na porta olhando-o partir. Ficou sem saber o que era. Se ela era ela ou se ela era os outros. Maria foi procurar José.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Não é que eu sumo de mim, assim, voluntariosamente. Já pensou que enquanto você está me procurando, eu também posso estar? Se me achar por aí, traga-me de volta, esse bêbado sem nome se equilibrando nas calçadas nem sabe procurando por o quê.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Da pele

"Ah! Eu te conheço muito bem, meu velho. Você não ousa confessar, mas tem medo de que ela enfie uma bala debaixo da pele. E diz que tem horror ao romanesco. Parece que nunca viu a pele dela, não é? Eu teria medo de ofendê-la só de passar o dedo por cima. E você acredita que uma boneca com uma pele daquela vai estragá-la a tiros? Posso imaginá-la jogada numa cadeira, os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de uma minúscula Browning. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa, não, meu velho, não. Revólver é para as nossas peles de crocodilo".
Marcelle em A Idade da Razão, de Sartre.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Carta para o Gordo


P(r)es(z)ado Ronaldo,

Favor continuar a "ajudar" o Corinthians a conquistar seu título inédito. Sua atuação hoje foi comemorada por Adriano, seu amigo fofo; Disseram aí que vai ter até mais uma daquelas festinhas que só ele sabe dar com jumentos, anões e outros convidados. Tome cuidado que seu telefone pode tocar a qualquer hora para também fazer parte do Freak Show.
E tentar, se possível, não se confundir tanto com a bola.

Farto desde já.
O nada acontecer













































merece ser escrito?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

I'm Here

Eu iria incorporar direto, mas achei mais legal colocar o link porque o site é muito bom.
Lançado esse ano no Festival de Sundance, é um curta de 30 minutos escrito e dirigido por Spike Jonze - Adaptação, Quero ser John Malkovich e Onde vivem os monstros.
A criação é da TBWA\Chiat\Day, e tem produção da MJZ e efeitos visuais da Method Studios. Além disso é um projeto da Absolut, a vodka, que deu liberdade criativa para que Spike fizesse essa obra-prima.
É de uma sensibilidade, de uma sutileza sem tamanho. Linda história.
Aproveitem:

http://www.imheremovie.com/

quinta-feira, 8 de abril de 2010

No afã da grande ideia

A minha universidade entrou de greve desde 8 de março. Eu fiquei assim ao deus-dará. Juro que tentei, por tudo, ter uma grande ideia. Como eu tentei. Li livros, histórias em quadrinhos, vi filme pra caramba, saí, mas nada saiu. Comecei uns três roteiros, uns dois contos. Nada.
E hoje, estava meio assim desistindo da ideia de ter uma ideia sensacional, sem pensar em nada quando, de repente, sem sobreaviso, veio bem sonoro como uma "Eureka" algo de dentro do meu âmago, pronto para ebulir. Corri para o meu quarto, peguei papel e caneta e comecei a escrever. Pensei que fosse deslizar sobre a folha milhares de ideias e imagens, mas não saiu nem um rabisco. Forcei, forcei e não saía nada.
O quarto começou a feder e percebi que eram só gases.

Pixels


PIXELS by PATRICK JEAN.
Enviado por onemoreprod. - Ver mais videos criativos

terça-feira, 6 de abril de 2010

Poema sobre a dor

Zimicina
Benzetacil
Nisulid
Clavulin
Soro Fisiológico
Antibiótico
ó amígdalas amigas, porque choram?
ó faringe amada, por que me deixas tão fraco?
Não bastando me machucar, ainda cala a minha voz?

Conserto (desabafo)

Experimente ir ao médico. Você vai sair de lá com um kit de primeiros, segundos e terceiros socorros. E quando você pensa que tá curado, o médico, competindo com os rivais do meio, usa seu corpo como teste e diz que a outra medicação está equivocada. Não é Zimicina nem Benzetacil, meu caro, é aquele tarja preta que você deveria estar tomando. Além disso, você tem desvio de septo e sua oclusão está errada, deve consultar um ortodentista. Daí você se lembra daquelas outras dorezinhas que tem, ou daquela queda precoce de cabelos. Lembra que não pode fumar. Pensa no tempo dispensado para recuperação, necessitaria gastar as férias.
Pro raio que o parta! Vocês médicos só sabem me consertar...

sábado, 27 de março de 2010

Comprei uma boa máquina fotográfica para gravar o mundo
mas veja você, o mundo não cabe na tela

Comprei um caderno para gravar o mundo
mas veja você, o mundo não cabe numa folha

Comprei o mundo e enjoei
achei minha máquina e meu caderno num baú
daí fiz outro mundo
e não comprei mais nada

segunda-feira, 22 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Prelúdio

Hoje tudo vai ruir

tenho a certeza de Nostradamus


trazendo o que já estava anunciado, uma frente fria virá

ricocheteando nos muros, paredes, postes de luz

congelando tudo

as palavras vão ficar alojadas na garganta trancada

vão arranhar, cortar, depelar todos os cílios da traquéia

quentes, entranhadas, enjauladas, as palavras

mas a boca fria, mármore

até o incidente climático passar

e as gargantas, desejosas, espumarem as palavras

cuspidas, escarradas

lançando no mundo a poesia mais nojenta e introspectiva dos homens

lançando no mundo o âmago amargo das entranhas

só o avesso, o homem como se é

segunda-feira, 15 de março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Sobre eu e você

Um desabafo. Há muito parei de ver ou ler jornais. Traumatizei-me um pouco com o jornalismo, quis (quero) entrar em um mundo cheio de ideias e viver de fantasia, quero chafurdar nisso tudo. Fui (sou) covarde? Talvez. Algumas drogas talvez já me extirpariam um pouco de realidade. Estou impotente diante das agruras do mundo; não sei o que fazer. Já disse e reitero, não espero mais nada do homem. Continuo a me assustar sempre mas já sem me surpreender.
Foi assim, assustado, que fiquei sabendo da morte do cartunista Glauco na tarde de sexta. Os jornalistas, portadores de grandes chaves (os chavões) para abrir um depósito de incertezas, confundiram assassinato com assalto. Como se confunde sunita com xiita e Santo Daime com macumba. As primeiras notícias, nada apuradas, atiram como isca gorda para o mar do imaginário popular. Não foi isso, não. O tal Carlos Eduardo não é um assassino nato, não nasceu com sangue nos olhos - e quem nasce? - ele é daqueles de personalidade ímpar. E são tantos os que conheço assim. De todos esses por nenhum eu coloco a mão no fogo.
Conheci Carlos Eduardo em 2006 ou 2007, eu acho. Malhávamos na mesma academia e trocávamos alguma ideia ou outra. O pai dele morava em Goiânia e inclusive também malhava nessa academia. Lembro de me contar sua primeira prisão (e não sei se a única) quando foi flagrado com um cigarro de maconha em Pirenópolis. Lembro de me contar que era um gordinho de São Paulo e que já fora alvo de chacota. Conseguiu emagrecer quando começou a fumar uns. Tudo certo até aí, era um classe média alta bem comum: morava com o pai, estudava pouco e fumava muito. Ele nunca fora muito forte e nem ganhava tanta massa, mas puxava peso com diligência, com rigor espartano. Gritava com vigor ao puxar os aparelhos, tinha raiva nele. Malhava pra ser Mister Universo aos olhos de quem via.
Conheci várias pessoas na infância que já foram caçoadas pelos amigos e que encontraram na academia o ofício da vingança, a resposta pra seus medos. Quase caquéticos quando muleques e infladosna adolescência.
Já tomei cerveja com centenas de Carlos Eduardos, todos diriam ser Jesus Cristo. Como detê-los? A psicanálise explica, a arte enaltece, a polícia age.
Meu irmão, estão saqueando os supermercados no Chile. Estão escondendo em suas casas, por vergonha dos outros, mutilados no Haiti. Meu irmão, atiraram no Mário Bortollotto e, é assim, ele continuou o mesmo. Porque tudo é o mesmo. Eles vão continuar atirando. A gente vai continuar morrendo. Eu vou continuar chorando. Mais coincidências virão e essa bosta vai sair no jornal e eu vou limpar a bosta do meu cachorro com isso. Os jornalistas vão continuar tentando seus furos de reportagem. Vão continuar fazendo listas de Dez Mais. Vão continuar falando de tudo com a propriedade de um doutor e a experiência de um macaco.
Não tenho nada contra humanos, só queria trocar uma ideia com o cara que cortou os rabos e os ensinou a falar.

Poema do jornal
Carlos Drummond de Andrade


O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.


Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Meliante

O Guarda Belo deu o flagrante. Jogou o spray dele no chão, mandou colocar as mãos na parede - estava com a arma em punho - e gritou:
- Gracinha, hein, malandro! Pixando os muros da cidade...
- Ia enfeitar a cidade, Seu Polícia.
- Pixando um muro?
- Sim.
- Quem você pensa que é?
- Eu falo com as pessoas me expressando nesse muro. As pessoas não andam conversando sobre o que sentem. Sou o que chamariam de poeta ou vagabundo. Pra você eu sou um meliante, apenas.
- Filho-da-puta, com quem você acha que está falando?
- Com todos vocês, com todos vocês.

quarta-feira, 3 de março de 2010

quando minha veia poética
estourou ela virou pra mim
e disse "deixa sangrar"

(Nicolas Behr)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Conversa de boteco

- Vou tentar deixar mais claro: pensa só, a gente tá aqui de bobeira e entra o Jack Nicholson por aquela porta.
- Como assim, o Jack Nicholson nessa bodega?
- É, porra.
- Ah, não. O Jack Nicholson você foi longe demais.
- Abstrai um pouco, porra. É só pra ficar mais claro o raciocínio...
- Num dá. Desculpa, num dá. O Jack não frequentaria um bar pé-sujo como esse daqui. Ele é macho, mas tem classe.
- Beleza, então. Vou pegar um ator brasileiro: o Selton Mello entra ali.
- Eu quero te ajudar, mas o Selton num é macho igual o Jack. Tô falando de cabra macho! Ator macho é Robert de Niro, Al Pacino, tem agora aquele... aquele Christian Bale, tem o Sean Penn...
- Não, o Sean Penn, não. O Sean Penn fez o "Milk". Agora quê que tem o Selton, ele é macho pra caralho, porra. Até pegou a Luana Piovanni.
- Ah, já ouvi umas histórias por aí que ele... ah, deixa pra lá. Mas o macho que a gente tá falando num é o macho pegador, se for assim até o Jesus Luz é pegador.
- Tá, tá. Esquece todos que eu disse, me lembrei do cara perfeito pra exemplificar minha tese. Ali naquela porta entra o Paulo César Peréio. Se encaixa em todos esses quesitos de macho alfa.
- Ah, o Péreio é macho. Se bem que usa lencinho e é gaúcho, mas vai...
- Beleza. Entrou o Peréio e só tem nossa mesa habitada aqui, todas as outras vazias. Ele num vai sentar no balcão pra conversar com o Adolfo, ele chega até aqui e puxa uma cadeira. Não pergunta se pode nem olha pra gente. Olha pro Adolfinho e brada: "Porra, Adolfo do Caralho, traz um copo pra mim, cacete!".
- hahaha... você sabe aquela história do Peréio, né? Ele tava com uma das trocentas mulheres que ele teve e os dois brigavam muito. Um dia, já enfastiada de tanta discussão, a mulher dele pergunta, "Ô Peréio, porque você faz isso comigo? Num consigo entender, viu...Num sou mulher pra sofrer assim" e tal e coisa... No que ele me responde uma das coisas mais geniais que um cara macho, mas macho sem essa de ficar socando tudo que se move, um macho de coração mesmo, ele fala: "Porque eu te amo, porraaaa!". Hahaha!
- Hahaha, genial, genial!
Os dois caem na gargalhada. O primeiro continua:
- Pois então, tô falando é de caras assim. Esse tipo de macho mesmo. Ele sentou aqui, tomou o primeiro gole e começa a conversar. Bicho, se o Peréio sentar aqui e tomar uma breja com a gente ele vai começar a falar e você nem vai querer me ouvir mais, num vai dar um pitaco: ele vai falar, falar, falar, deitar o cabelo mesmo. Porque esse tipo de cara tem o dom. Esses caras contam uma história e você vai achar que ele é o personagem principal de um livro que o mundo escreveu. O cara vai te calar a boca. Você nem lembra de tomar cerveja mais, as cervejas que vão descer aqui são só pra ele e você vai pagar com gosto enquanto seu copo cria dengue. O cara é entretenimento puro, é um showman. Mas por que eu tô dizendo isso tudo? Eu tinha um pouco de asco desses caras. Falar a verdade ainda tenho um pouco. Eu deixaria o Peréio falar à vontade aqui, mas ao chegar em casa eu ficaria um pouco puto.
- Mas por quê, bicho?
- Ah, você sabe. Esses caras são os que, na infância, xingam o cara de maluco porque ele fica na dele e pensa demasiado, chamam o outro de quatro-olhos, o outro de gordinho, o outro de mais feio, orelhudo, são os mais velhos que tiram uma com a cara do irmão caçula...
- Daí você levou pro pessoal só porque é caçula...
- Mas a opinião é minha, porra! É óbvio que é pessoal! O fato é que todo mundo já sofreu um pouco, todo mundo tem um primo mais velho sacana ou um tio capeta, mas pode ver, os que são poetas são sempre os que sofreram um cadiquinho mais. Presta atenção nisso, cara. São aqueles que tragaram alguma dor, que se voltaram para si pra curar uma chaga cavada por outra pessoa.
- Discordo. Porra, eu sou poeta e num sofri nada, cara. Minha vida é um grande passeio.
- Ah, vai te fuder, vai. Vai ficar me interrompendo pra falar uma ladainha dessa? Você é o maior sentimental de todo o Bairro da Balbúrdia e me vem com essa?
- Tô falando, cara. Eu sou assim porque sou assim, nasci desse jeito, ninguém me fez sofrer muito.
- Tá bom, e quando roubaram seu lanche na quinta série?
- Ué, deixei de comer, só isso.
- Hahaha, você tá variando. Mermão, você ficou choranto pra Tia Gleice o resto da aula todinha até ela te pagar um lanche! E quando a Cláudia te largou? Parecia uma moça choramingando! Num me vem com essa... E outra, esse sofrimento pode ser muitas vezes causado por outra pessoa, mas não de forma malévola. Se o pai do cara morre, nem pai nem filho tem culpa disso. E a dor é só do filho.
- Que seja, continua essa merda de teoria sua.
- O Peréio, que pelo jeito sofreu pouco, é um poeta. Um poeta de marca maior. A habilidade desse cara pra falar já faz das palavras dele uma poesia. O cara é o Camões de porre. Só que ele não é o tipo de poeta que escreve, é o poeta da fala. Os poetas que falam são caras amados por todos, tem carisma mesmo, num tem como você desgostar. Esses caras, vá lá, podem até saber o que é sofrimento, mas não sabem sofrer. Sofrer é um dom. O outro lado são os poetas que escrevem ou desenham ou filmam, os artistas. Esses, ao invés de sentarem aqui e começarem a contar seus causos, eles falam através da arte e o público deles é como nós dois aqui ouvindo o poeta Peréio. Eles não fazem da dor uma história pra boteco, eles fazem muito mais. O Laerte, porque ele é deus pra mim? O cara perdeu o filho e começou a fazer os quadrinhos mais loucos que o mundo já viu. Ele não parou de desenhar, bicho, ele transformou a dor dele em tirinhas.
- Mas, sei lá, é se o Péreio também gostar de escrever? E se ele sofreu pra caralho?
- Tudo bem, que escreva, que tenha sofrido, mas ele nunca seria reconhecido por isso. O cara nasceu pra ser o ator cafajeste, da voz grossa que deixava as menina até vesga. É como o Edmundo comentar jogos, porra, ele é o Animal, cara, ele mete gol, ele num fica de conversinha. O Jô é o contrário, imagina se ele desse uma de querer escrever livros existencialistas? O cara é o Jô, os livros dele não são pra serem levados à sério. Ele é filho de vó, cara. Nunca viu sofrimento. Há ainda aquelas pessoas que se encaixam nos dois perfis, porém são muito poucos e mais, o mundo é maniqueísta, cara... Ou o cara é o poeta que fala, ou o poeta que escreve.
- E o Woody Allen?
- Ah, o Woody Allen tá mais pra Peréio. Mas equilibra bem os dois.
- É, não sei se ele sentaria num bar. Ele é o tipo que toma capuccino em algum Café. Mas e o Walter Salles que é um riquinho de merda e fez dramas que fazem até um caminhoneiro chorar?
- Sabe sofrer. Tem sensibilidade, cara. O mundo toca ele, ele é poeta que escreve. Pra terminar esse assunto, então o que eu tava querendo dizer esse tempo todo é que os poetas que escrevem demoram mais para aparecer. Geralmente estão chafurdados dentro de si, daí um dia você empresta seu violão pra esse cara e ele vira o Bob Dylan, sacou? O cara mostra pra que veio, passou a vida meio mudo e a arte deu voz pra ele. A poesia, cara é dizer para si: pode passar. É aceitar-se como sócio do clube que você é o próprio presidente. A poesia é a humildade do reconhecimento, é escancarar para qualquer um a dor e a delícia de ser o que se é. É a forma mais próxima da franqueza. É você abrir suas tripas, puxar seu coração, pulsante, sangrento, e entregar na mão de uma pessoa dizendo: é isso o que eu tenho pra te dar, seu puto. É só o que tenho. Você entende a dor de parir um poema?
- Acho que sim, cara.
- Imagina pegar toda a dor da sua vida, todos seus momentos que esteve só e fazer disso algo belo e dar de presente pra alguém...
Encheu seu copo e tomou de virada.
Seu amigo, pensativo, disse então:
- Você se encaixaria em qual grupo?
- Poetas que escrevem e aventureiro no universo dos poetas que falam. Até tento ser desses que chamam a atenção quando sentam pra tomar uma gelada, e confesso, tenho um relativo sucesso, mas bem aquém do que eu poderia desejar. Eu não sei o que dizer na frente de uma câmera, mas me dê um papel e algumas horas só e você veria o que eu posso fazer. Posso não ter sofrido tanto, eu não sou Frida, nem um remanescente da ditadura, mas eu sei sofrer, mano.
Ficaram calados. O amigo quebrou o silêncio:
- E eu... em qual grupo você me encaixaria?
- No volumoso grupo dos caras que tem que sofrer mais que os outros.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mural de Mensagens

Lembrar de mandar o Técão tomar no cu porque eu tô com saudade dos textos dele e de tomar uma com ele, mas ele não tem tempo e mora longe.

Laerte


Garimpei aqui e me dei conta de que não tem nenhum quadrinho de deus (que ultraje!). Esse aí é de 02/02/2010, na Folha de S. Paulo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sentir

Minha memória me trai
veja, não lembro mais do que eu ia falar
mas sei que estou pronto para sentir todos meus pelos se eriçarem
sempre

Mural de Mensagens

Saí pra comprar cigarro. É picado, eu volto logo, sério.

Mural de Mensagens

Lembrar de voltar a ser o que era para depois lembrar-me de esquecer.

Da morte

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?

Tradução de XXXVI, poema de "Livro das Perguntas" de Pablo Neruda.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O poeta é só
só, isso mesmo.
Só isso.

Tempo, mano velho

Dê-me um mês de solidão
30 dias de lamúria,
[mas por favor amigos, não me esqueçam]
e eu voltarei com onze novos para todos

O domingo existe para a segunda

domingo, 3 de janeiro de 2010

Engodo

Design and Direction :weareom: - weareom.com
Lighting by David Lee - davidleedop.com
Production by studioset - studioset.tv
Post Production by :weareom: - weareom.com
Sound by Alin Flaidar - studioset.tv
Starring Vlad Grigorescu - vladgrigorescu.com

*Preço estimado: 3000 euros.
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Junta duas das minhas maiores fixações: o truque e o cinema. E já não sei qual vem primeiro - pois têm o mesmo princípio - ou, como diria Jean-Luc Godard, o cinema é a mais bela fraude do mundo.


CHOP CUP from :weareom: on Vimeo.