quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Dia 31 de dezembro

Goiânia sofre todo final de ano uma irremediável diáspora. Digo irremediável pois nem a Claudinha Leite segura, todos que aqui estão, daqui se vão. Fico pensando, quem é o louco que vem pra Goiânia pra passar o reveillón? Mas cá estou. Meus amigos viajaram, digo aqueles que são amigos mesmo. Alguns viajarão ainda hoje para alguma cidade do entorno; e, veja, até Anápolis tem sido mais convidativa.
Sinto que estou envelhecendo. Há chances de passar a primeira virada de ano da minha vida em casa e sozinho. Meu pai ainda levou as cervejas boas e me deixou as Bavarias. Agora mesmo saboreei meu último almoço de 2009: uma carne suculenta e mal passada e gordurosa que sobrou de um churrasco em Pirenópolis. E digo, se for conservar carnes no freezer, conserve-as mal passadas porque quando for esquentar no microondas, elas soltam aquele suco vermelho lindo e não esturricam. Se for cupim, pode esquecer. Acompanhando, uns pãezinhos que minha tia faz com linhaça e aveia que eu azeitei como se estivesse na Sicília - perigoso ela ter uma sapituca ao ver os saudáveis pães misturados àquela borra de sangue. Coloquei um Nelson Cavaquinho, meu companheiro de solidão e me deu aquela vontade de chorar ao ouvir sua voz lastimosa, como sempre dá. Com certeza ele foi minha trilha sonora de 2009 (valeu pela aplicação, Negão). Ele o Otto também.
Mas sobre ficar só, sei lá, acho que tenho invertido as coisas como sempre hei de inverter. Enquanto os jovens vão acumulando os amigos, eu vou escolhendo os meus, vou preferindo ficar em casa à sair à vera, ficar lendo minhas coisas, escutando meu som, vendo meus filmes, bebendo minhas Bavarias. Agora inventei de viajar sozinho. E não é pra Anápolis ou Pirenópolis, vou conhecer Bolívia e Peru. Eu e uma mochila.
Ando tão encasmurrado. Sempre querendo me encontrar. Minha mãe me disse outro dia que eu tô mudado, que 'cadê sua alegria?', essas coisas. Eu sei lá, nem ando mais me aporrinhando com as coisas, quero viver só pra mim e deixar o resto tocando. Não tô dizendo que foda-se o resto, só tô dizendo que nada mais tem me chamado a atenção que não seja a expressão genuína do que sou. E só a arte sabe dizer isso. Só 'eu' me interessa. E isso não é um modo egoísta de mal sentido. Pois não quero o mal de ninguém, cada um vive como quer. Só quero chafurdar em toda minha abundância. E quero, sinceramente, encontrar pessoas assim, que me digam como são porque são assim, não porque fizeram delas assim. E quero escutá-las não para mudar o que elas pensam ou discordar do que pensam, pois quero ver que cada um tem um história linda pra contar.
Esses ares taciturnos são só um ciclo, pois sempre os tenho e sempre me livro deles. Mas eu acho que eu sou é esse daqui e o outro é só eu tentando um pouco de férias de mim (né, Laura?). Eu gosto mesmo é da volta pra casa. Gosto mesmo é do descanso depois da labuta, do descanso merecido. Tudo, tudo pra mim é matéria-prima pra uma arte - ainda que não a pratique como pretendo. Mas, no fundo, eu queria ser é Jack Kerouac ou o Jorge Ben e extrair a poesia diária.
Vamos ver o que vira desse revillón, Negão me chamou pra um churrasco com chopp pra entrar o ano novo no engov. Talvez eu vá. Talvez eu fique e veja "Na Natureza Selvagem" mais uma vez e mande umas mensagens pra meus amigos e amigas que eu nunca esqueço.
Um 2010 porreta pra todos nós.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

avesso

Sou tão avesso
avesso com aversão
nada é tão para mim,
meu lado é sempre o outro
tudo fugidio
economizando palavras (onde não deveria poupar nada!)
para não me entregar de inteiro
pois sou avesso

e sou tão avesso
que o avesso de avesso,
para mim,
não é o certo,
é simplesmente:
osseva.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

frio 2

posto que as mãos são os olhos do coração
o tempo, agrura, não pode cegar-lhes não
muito menos consertar meus problemas de visão

Os Nomes

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já não nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos
claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo
modo de dizer "Meu Deus, valei-me".

Adelaide não foi para mim Adelaide somente,
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

(Manuel Bandeira)

sábado, 12 de dezembro de 2009

frio

Eternas contigências
tenham clemência desse sedento
não deixem que o tempo fora
traga a frieza do cume dos Andes
para as mãos de minha(s) garota(s)

Mural de Mensagens

Não se esquecer de arranjar uma noiva

Bichos Escrotos

Bichos!
Saiam dos lixos
Baratas!
Me deixem ver suas patas
Ratos!
Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado...

Pulgas!
Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos Escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos Escrotos
Venham enfeitar
Meu lar!
Meu jantar!
Meu nobre paladar!...

Bichos!
Saiam dos lixos
Baratas!
Me deixem ver suas patas
Ratos!
Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado...

Pulgas!
Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos!
Baratas!
Ratos!
Cidadão civilizado
Pulgas!
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos Escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos Escrotos
Venham enfeitar
Meu lar!
Meu jantar!
Meu nobre paladar!...

(Titãs - Nando Reis / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto)

é agora ou já!

é safra
sacas gordas e derramantes para carregar
aproveita a chuva que o sol vem vindo pra cegar
pega isso aí e planta no papel
que dá samba

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.

Rita Apoena