segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Breu

Tem dia que a noite é escura
eu, esse capacho,
tô mendigando um feixezinho de luz, por favor
que a noite não passa
e nem a lua, veja lá, veio hoje descer
o que posso nomear
não pode me ferir
a poesia é tentativa
[a mais certeira]
de se sangrar
com uma faca de plástico
ou um palito de dente

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vigiado

Quando muleque, minha mãe passou a escrever umas frases que eu dizia. Entre a mãe-coruja que quer perpetuar o filho, torná-lo póstumo ainda que não morra, e a pessoa que admirava, só. Um dia abri um caderno e vi umas três ou quatro: aspas, data e meu nome.
"Todo mundo que vive na margem é marginal?", acho que eu tinha meus dez verões nessa época. Me senti como se tivessem arrombado a porta do banheiro na hora do meu banho. Eu lá, à vontade, esquecido da existência de qualquer outro, de repente uma horda de paparazzis saem de todas as frestas, da janelinha, por cima do box, no buraco do azulejo e eu, tapando meu sexo, desolado tateando as paredes para encontrar minha toalha, enquanto me ocupo de desviar dos flashes. Rubro, branco.
- E desde quando você fica me vigiando?
- Sobre o que você está falando, Mau?
- Porra, mãe! Eu vi no caderno! Se você passar a anotar tudo o que eu falo, eu vou falar pensando no que digo, se é digno de ir pro seu caderninho!
Eu não mudei nada. Sistematizando minha anarquia. Tentando respeitar esse jeito torto de pensar. Arranjando um modo-de-produção poético. Querendo fazer tudo do meu jeito, se envergonhando na frente de uma câmera, na frente da turma. Pensando assado.
A ideia, mãe, é ótima. Mas eu não podia ficar sabendo, porra! Você perdeu reflexões e eu ganhei mais medos. Que bela troca!
e o que vem depois?
já me lembrei de esquecer meus medos
já guardei, até de mim, todos meus segredos
já colhi vitamina C direto do cacho
já ouvi minha música de macho
já ensaiei minha frase de efeito
e tô pronto pra matar no peito
pois sou filho de leminsky e seu hino
e o que pintar, agora, eu assino

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

reverberação do tempo

Acordou berrando e esperneando ao ver a luz
levantou da cama e fez perguntas idiotas (capciosas) a si
[entre o transe do sono e o pé no chão gelado]
tomou um banho gelado e animou-se, juvenil
[chegou a se indignar com o noticiário matinal]
entrou no carro e dirigiu ao trabalho com o braço pra fora da janela, som alto
no caminho pra sala topou o chefe e cumprimentou com respeito
trabalhou com a experiência dos seus já 40 anos
despediu do chefe, aposentado, louco pra ir pra casa
jantou e prostrou na frente da televisão
[babava]
deitou e faleceu
Eu sei que errei

mas prometo
nunca mais
usar a palavra certa

(Nicolas Behr)
Acordei e ela não estava mais do meu lado
achei-a debaixo da cama, com medo

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

vamo lá, eu acho que todos os textos do mundo tinham que ser escritos assim, na tora. Esse ponto final é pra eu respirar e pra pensar em outra coisa pois a minha cabeça é curta e rápida, igual uma tirinha do laerte, ela não sabe se delongar em tantos assuntos, ela quer passar por tudo e ainda a seu modo somente. de vez em quando ela volta, como que se cobrando por uma razão, uma mínima, para que eu não vá tantas léguas à frente e como querendo aprender, tentando fixar algo. Tanto é que foi outro ponto final. Eu dizia sobre como acho que todas as coisas deveriam ser escritas assim como Jack Kerouac ou como Saramago. porque dividir em capítulos, porque dividir em parágrafos, se quando pensei foi tudo junto? agora começo a achar que ponto final não é pausa pra porra nenhuma porque quando eu pensei em algo e logo depois mudei para o outro algo eu só fiz isso porque existiu o primeiro, logo, eu não mudei de assunto, minha cabeça simplesmente fluiu para essas bandas, e só fluiu porque precisou daquela placa de atalho. O ponto final, eu ia falar, é a intersecção do pensamento velho com o que vem vindo e que, para mim, vem ligeiro e vai ligeiro. Sinto que preciso dar vazão aos sentimentos, como diria aquela camiseta que eu vi numa loja pra comprar, e vou falar que ao mesmo tempo que achei bonita pela iniciativa achei uma puta sacanagem, pois dar vazão aos sentimentos é algo perigoso e não vem assim tão fácil. eu precisei de semanas de tristeza para me sentir vivo de novo. é preciso encher quando se está vazio e esvaziar quando se está cheio e coçar quando tiver coceira. mas, porra, me lembrar que preciso dar vazão é o que eu me lembro toda hora e por isso é triste abandonar minha tristeza. mas eu achei a camiseta uma puta sacanagem porque pareceu-me não como lembrete, mas como obrigação. ninguém é obrigado a isso não. é obrigado a sentir, isso sim. mas não a demonstrar isso, e fica até mais bunito quando não se quer demonstrar e acaba demonstrando, esses são os que ralmente sentem. E eu gosto é dessas pessoas que sentem, que se arrepiam com qualquer firmeza no falar, com qualquer conjugação idiota, que se idiotizam pra sentir esse turbilhão de coisas que eu quero como um futurista que passem sobre mim e me esmaguem! E a minha vem assim, mas do que nunca, em dias como hoje. Se eu amasse alguém, tá, eu amo alguns alguéns, mas tivesse comigo alguém que eu amo e que me entendesse, aliás parecesse me entender, porque ninguém entende ninguém já que eu mesmo não me entendo, se eu tivesse esse alguém, aí então eu falaria uma porção de coisas bonitas para essa pessoa. E juro que nem pensaria, pois eu estou com o peito aberto, flamejando de vontade de botar pra fuder e não encontro uma viv'alma que esteja sentindo o mesmo que eu, caralho!

domingo, 8 de novembro de 2009

Lá vem

Já vem vindo a nova velha sombra para me iluminar
Eu bem maior que o mundo
que se lasque a legalização da maconha
ou a nova missão da polícia
ou a última frase de Dilma-Lula
ou o último caso daquela atriz gostosa
ou o quantas twittadas por minuto são possíveis
ou o preço do seu ray ban

eu quero mesmo é gozar.

Guerra dos Sexos

O problema das feministas é que elas são tão machistas quanto os homens. Um desejo insaciável de superar o sexo oposto - como elas adoram ressaltar - de serem poderosas. Competindo com esse papo de igualdade de gêneros, de equiparação.
Para mim é muito claro que só o que muda é o que está no meio das pernas. É, tem a TPM também. Mas falo apenas por mim.
Admiro os homens que falam por elas. Um salve pra Lars Von Trier e para o Tom Zé. Para o Dan Brown não, só porque ele é best-seller.