terça-feira, 30 de junho de 2009

aê meu velho! (III)

Letra da música "Algo que não sei o quê" do meu bom Prieleza.
Diz-se que uma música é boa mesmo quando bate na ideia e fica por lá. Outro dia amanheci cantando ela - ou melhor cantarolando, porque eu não sei a letra - e isso prova a tese.
Taí, então. Melhor seria com a melodia (boa pra caralho).
Abraço, muleque!

Algo que não sei o quê

Deve haver alguma coisa errada em mim
Algo que não sei o quê
Quando é dia só penso em dormir
E à noite dá vontade de viver

Todo mundo insiste em me perguntar
"Por quê tá com essa cara meu irmão?
Tem alguma coisa acontecendo com você
Algo que não sei o quê

A doce rotina tem a oferecer
Trabalho, lazer, religião
Meu amigo a vida é boa e lhe sorri
E você com essa cara de cão!"

Deve haver alguma coisa errada em mim
Algo que não sei dizer
Quando é dia a minha vida é tão ruim
E à noite até que dá pra se viver

Cai a noite, é hora de me levantar
Sou alegre como a escuridão
Quando é dia rezo pra que chegue ao fim
Tenho até medo de assombração

Fui ao analista, ao centro, ao pai joão
E até fui à igreja me benzer
"Tem alguma coisa acontecendo com você
Algo que não sei o quê...

DDA, insônia, falta Deus no coração
Trauma de infância, depressão
Charlatão, malandro, vagabundo de plantão
Quem sabe há algo errado com o colchão...

Deve haver alguma coisa errada em mim
Ou errado está você?!
Que gasta o dia inteiro a progredir
Pra à noite descansar ou morrer.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O artista

O artista é o homem que esquece. É aquele que inventa porque não lembra que já existe. Ele não se prende ao mundo, porque esquece que existe mundo. A sua inocência cândida é o seu projeto ardiloso. O artista se revisita inúmeras vezes porque se esquece do que criou. Por isso ele grava, grafa, grada, aos poucos, para que um mínimo de memória lhe reste.
O artista é um homem velho com Alzheimer. Remotamente se remete ao passado, mas não faz ligação com o presente. O passado lhe salvaguarda a linguagem: o único meio que tem para se expressar no presente; mas ele não sabe mais usar, então subverte-o. A diferença é que ele não tem Alzheimer.

sábado, 20 de junho de 2009

Urubus e Sabiás

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que bichos falavam...
Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para canto, decidiram que, mesmo contra a natureza, eles haveriam de se tornar cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejavam dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam permissão de mandar nos outros.
Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em inicio de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamavam por vossa excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida.
A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás...os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

- "Onde estão os documentos dos seus concursos?" E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam, simplesmente...
- " Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem ".

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam de alvarás...
Moral: Em terra de urubus diplomados não se houve o canto de sabiá

Rubem Alves

"Morre o burro, fica o homem"


É daqueles homens que não se acha mais. Daqueles homens que não se acovardam, que são éticos, que são corretos. É daqueles que honram sua palavra, dos dignos de um texto de Rui Barbosa, dos merecedores de méritos, dos que ensinam sempre. Daqueles teimosos, mas convictos.
Ensinou-nos que o futebol brasileiro, tão cheio de marra e manha e gingado, é sério também. Pois possui o drible malandro e o chute direto da fala, como dos pés. Não vou negar nunca que é um dos maiores heróis que tenho em minha vida, e que muito por ele, eu ainda bato em meu peito e digo: esse é o meu time. Ele é o técnico que tem a cara do São Paulo. Tão quanto Telê.

Obrigado por tudo, Muricy.
Espero pela sua volta.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Caleidoscópica

Dentre todos que ela tinha
ela me ofereceu um dia seu
Me propus a enxergar de que cor era

O dia era roxo ou vermelho
eu bem ainda não sei
Era luz
Preciso de sombra pra enxergar

Olhei com um olho só
fechei bem o outro
pois quis ver que era inteira
e não posso admitir que um caleidoscópio são 3 espelhos, um cano PVC e missangas de uma feira.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Meio semanoso

Já acordou já domingando
Era segunda, precisava sabadear
Mais seus dias nem suas feiras eram suas
e acabou morrendo na quarta
sonhando reviver na quinta

Para não esquecer

"A arte é o caminho mais curto de um homem a outro", Claude Roy.

sábado, 6 de junho de 2009

Vício

- Garçom, uma dose de mim bem caprichada.
- Com gelo?
- Não, não. Preciso me desencontrar pra me encontrar o mais rápido possível. Sem gelo, cowboy mesmo.
- Dia longo, parceiro?
- Nada, só excesso de realidade mesmo. Nada que não possa ser resolvido.
Serviu uma dose cavalar. Estava me viciando em mim, toda noite tomava litros. Um gole da maldita e já me sentia curado; gostava de me enganar. Ia de barriga vazia e cabeça vulnerável, louco para ser pego de surpresa planejada, querendo que o efeito surtisse rápido como se esvaía. Mas não há como, ali entregue eu me sentia senhor de si e feliz, pois sabia que exista infelicidade em mim, mas eu sabia, eu existia. Tateava meus braços para ver se já estava me sentindo. Me beliscava para confirmar que agora a dor era sincera. Era dor e machucava, mas era minha dor.
- Alguma coisa a mais, doutor? - Atravessou ele.
- Nada, amigo. Talvez o telefone dos Existencialistas Anônimos, caso um dia eu queira me tratar. Por enquanto só mais uma dose.

Graça, minha primeira lembrança

A névoa densa ia dançando na minha frente. Olha que bonito: vai pra lá, vai pra cá, corre, dribla, pula.
Tosse, tosse. Não, não tosse; se você tosse ela não cede, não ceda você. Sopra então, é, sopra pra lá essa fumaça. Tira ela da sua cara.
Ai, acho que não vai dar. Irrita meus olhos, o nariz, a garganta.
Eu tusso, tusso forte e fico vermelho de tanto tossir. Porra Graça, qual é a graça nisso?
Graça fumava, caipora louca, e depois Graça ria. O riso era bom, gostoso de ouvir, conquistava os débeis. Eu com meus meses de vida já ouvia com prazer ressoando no pé da minha orelha aquela risada. Tossia e ria com ela. Que desgraça, rindo assim ela traga uma carteira inteira na sua frente só pra te ver afobado, abafado. Paro de rir. Ela puxa mais forte, esbaforida de tanto fumo e bafeja mais. Tusso, tusso.
Tá perdendo a graça, já. Daí ela me ri de novo! Rio, rio de lágrimas dela! Que risada gostosa! Graciosamente ela ria e eu com ela.
Graça era empregada e babá. Minha mãe me deixava com ela porque confiava nela. E bem podia mesmo. Era uma senhora legal; matava as segundas por causa do porre de domingo, virava as pálpebras ao contrário e corria atrás de mim pra me assustar, fumava na minha cara, mas ainda então era legal.
Me divertia com ela e ela comigo. Cuidava de mim. Bem melhor que a Vânia que me deixava lá em cima e ia tocar violão com o porteiro. O violão da minha mãe, ainda.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

aê meu velho! (II)

Esses meus versos

Um dia convidei meus versos
para virem ao mundo,
apreciá-lo, admirá-lo,
compreendê-lo.

Covardes,
permaneceram.
Sabiam demasiado
do que era o mundo,
naquele pobre mundinho
de palavras jogadas no papel,
escritas por quem
acha que entende de mundo.

Mas, ah, aquele não era o mundo.
Aquele era um mundo
de papel,
plano.
Achatado.
Chato.

Tinham medo,
os versos meus,
desse mundo
de injustiças,
onde amores deixam-se perder,
esquecer-se,
onde o tempo passa
e é escasso.

Não viram a beleza
do mundo vivo,
estes meus versos.

Ah, como dói o amor,
e isto eles sabem da literatura,
mas nunca sentiram
a beleza de se sentirem
maiores depois de superar
tamanha perda.

Nunca viram a força de vontade
de um homem se levantar
dia após dia
sem pensar no que antes o fazia mover.
Não sentiram a beleza
de se renovar,
de serem a cada dia, diferentes.

Também,
ficam o dia todo naquela mesmice.
Esses meus versos,
tão chatos...


Danilo Steckelberg, meu querido Técão.
Aí um poema doído pra ser feito.
Abraço, meu velho! Escreve muito!
(http://danilosteck.blogspot.com/)

aê meu velho! (I)

Mas olhei pra cima, abri sorriso
Dei uma de esperto, afinal o teto
Também é parede em horizontal


Fábio Campos Coelho, meu parceiro Binho
(www.suscitardaspalavras.blogspot.com)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Riso

Ela riu de nervosa, mas se arrependeu. Riso assim não se mede, sai sobejando e infestando. Não foi lá um riso de gargalhada de estourar os decibels da audição, foi até um riso tímido, mas bem sonoro. Audível para perceber que olhos de esguelha lhe perscrutaram.
O professor de geografia não era um cara engraçado, era bem crítico, sagaz, mas longe da gargalhada e perto da galhofa. Ela nem havia achado tanta graça, porém teve de continuar rindo como se o que ele havia dito sobre a situação econômica chinesa lhe dissesse algo especial ou que só ela havia captado. Todo mundo ao redor sabia que não significava muito o que disse o professor, sabiam que o seu riso frágil havia rompido os ditames do risível e sabiam que aquilo não era mais especial para ela. Solícitos e experientes por terem rido assim outro dia, alguns sorriram por complacência.

Prazer

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Mundo Pequeno (Parte VI) de O Livro das Ignorãças de Manuel de Barros.