quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Dia 31 de dezembro

Goiânia sofre todo final de ano uma irremediável diáspora. Digo irremediável pois nem a Claudinha Leite segura, todos que aqui estão, daqui se vão. Fico pensando, quem é o louco que vem pra Goiânia pra passar o reveillón? Mas cá estou. Meus amigos viajaram, digo aqueles que são amigos mesmo. Alguns viajarão ainda hoje para alguma cidade do entorno; e, veja, até Anápolis tem sido mais convidativa.
Sinto que estou envelhecendo. Há chances de passar a primeira virada de ano da minha vida em casa e sozinho. Meu pai ainda levou as cervejas boas e me deixou as Bavarias. Agora mesmo saboreei meu último almoço de 2009: uma carne suculenta e mal passada e gordurosa que sobrou de um churrasco em Pirenópolis. E digo, se for conservar carnes no freezer, conserve-as mal passadas porque quando for esquentar no microondas, elas soltam aquele suco vermelho lindo e não esturricam. Se for cupim, pode esquecer. Acompanhando, uns pãezinhos que minha tia faz com linhaça e aveia que eu azeitei como se estivesse na Sicília - perigoso ela ter uma sapituca ao ver os saudáveis pães misturados àquela borra de sangue. Coloquei um Nelson Cavaquinho, meu companheiro de solidão e me deu aquela vontade de chorar ao ouvir sua voz lastimosa, como sempre dá. Com certeza ele foi minha trilha sonora de 2009 (valeu pela aplicação, Negão). Ele o Otto também.
Mas sobre ficar só, sei lá, acho que tenho invertido as coisas como sempre hei de inverter. Enquanto os jovens vão acumulando os amigos, eu vou escolhendo os meus, vou preferindo ficar em casa à sair à vera, ficar lendo minhas coisas, escutando meu som, vendo meus filmes, bebendo minhas Bavarias. Agora inventei de viajar sozinho. E não é pra Anápolis ou Pirenópolis, vou conhecer Bolívia e Peru. Eu e uma mochila.
Ando tão encasmurrado. Sempre querendo me encontrar. Minha mãe me disse outro dia que eu tô mudado, que 'cadê sua alegria?', essas coisas. Eu sei lá, nem ando mais me aporrinhando com as coisas, quero viver só pra mim e deixar o resto tocando. Não tô dizendo que foda-se o resto, só tô dizendo que nada mais tem me chamado a atenção que não seja a expressão genuína do que sou. E só a arte sabe dizer isso. Só 'eu' me interessa. E isso não é um modo egoísta de mal sentido. Pois não quero o mal de ninguém, cada um vive como quer. Só quero chafurdar em toda minha abundância. E quero, sinceramente, encontrar pessoas assim, que me digam como são porque são assim, não porque fizeram delas assim. E quero escutá-las não para mudar o que elas pensam ou discordar do que pensam, pois quero ver que cada um tem um história linda pra contar.
Esses ares taciturnos são só um ciclo, pois sempre os tenho e sempre me livro deles. Mas eu acho que eu sou é esse daqui e o outro é só eu tentando um pouco de férias de mim (né, Laura?). Eu gosto mesmo é da volta pra casa. Gosto mesmo é do descanso depois da labuta, do descanso merecido. Tudo, tudo pra mim é matéria-prima pra uma arte - ainda que não a pratique como pretendo. Mas, no fundo, eu queria ser é Jack Kerouac ou o Jorge Ben e extrair a poesia diária.
Vamos ver o que vira desse revillón, Negão me chamou pra um churrasco com chopp pra entrar o ano novo no engov. Talvez eu vá. Talvez eu fique e veja "Na Natureza Selvagem" mais uma vez e mande umas mensagens pra meus amigos e amigas que eu nunca esqueço.
Um 2010 porreta pra todos nós.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

avesso

Sou tão avesso
avesso com aversão
nada é tão para mim,
meu lado é sempre o outro
tudo fugidio
economizando palavras (onde não deveria poupar nada!)
para não me entregar de inteiro
pois sou avesso

e sou tão avesso
que o avesso de avesso,
para mim,
não é o certo,
é simplesmente:
osseva.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

frio 2

posto que as mãos são os olhos do coração
o tempo, agrura, não pode cegar-lhes não
muito menos consertar meus problemas de visão

Os Nomes

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já não nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos
claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo
modo de dizer "Meu Deus, valei-me".

Adelaide não foi para mim Adelaide somente,
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

(Manuel Bandeira)

sábado, 12 de dezembro de 2009

frio

Eternas contigências
tenham clemência desse sedento
não deixem que o tempo fora
traga a frieza do cume dos Andes
para as mãos de minha(s) garota(s)

Mural de Mensagens

Não se esquecer de arranjar uma noiva

Bichos Escrotos

Bichos!
Saiam dos lixos
Baratas!
Me deixem ver suas patas
Ratos!
Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado...

Pulgas!
Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos Escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos Escrotos
Venham enfeitar
Meu lar!
Meu jantar!
Meu nobre paladar!...

Bichos!
Saiam dos lixos
Baratas!
Me deixem ver suas patas
Ratos!
Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado...

Pulgas!
Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos!
Baratas!
Ratos!
Cidadão civilizado
Pulgas!
Onçinha pintada
Zebrinha listrada
Coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui
Na face da terra
Só bicho escroto
É que vai ter...

Bichos Escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos Escrotos
Venham enfeitar
Meu lar!
Meu jantar!
Meu nobre paladar!...

(Titãs - Nando Reis / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto)

é agora ou já!

é safra
sacas gordas e derramantes para carregar
aproveita a chuva que o sol vem vindo pra cegar
pega isso aí e planta no papel
que dá samba

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.

Rita Apoena

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Breu

Tem dia que a noite é escura
eu, esse capacho,
tô mendigando um feixezinho de luz, por favor
que a noite não passa
e nem a lua, veja lá, veio hoje descer
o que posso nomear
não pode me ferir
a poesia é tentativa
[a mais certeira]
de se sangrar
com uma faca de plástico
ou um palito de dente

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vigiado

Quando muleque, minha mãe passou a escrever umas frases que eu dizia. Entre a mãe-coruja que quer perpetuar o filho, torná-lo póstumo ainda que não morra, e a pessoa que admirava, só. Um dia abri um caderno e vi umas três ou quatro: aspas, data e meu nome.
"Todo mundo que vive na margem é marginal?", acho que eu tinha meus dez verões nessa época. Me senti como se tivessem arrombado a porta do banheiro na hora do meu banho. Eu lá, à vontade, esquecido da existência de qualquer outro, de repente uma horda de paparazzis saem de todas as frestas, da janelinha, por cima do box, no buraco do azulejo e eu, tapando meu sexo, desolado tateando as paredes para encontrar minha toalha, enquanto me ocupo de desviar dos flashes. Rubro, branco.
- E desde quando você fica me vigiando?
- Sobre o que você está falando, Mau?
- Porra, mãe! Eu vi no caderno! Se você passar a anotar tudo o que eu falo, eu vou falar pensando no que digo, se é digno de ir pro seu caderninho!
Eu não mudei nada. Sistematizando minha anarquia. Tentando respeitar esse jeito torto de pensar. Arranjando um modo-de-produção poético. Querendo fazer tudo do meu jeito, se envergonhando na frente de uma câmera, na frente da turma. Pensando assado.
A ideia, mãe, é ótima. Mas eu não podia ficar sabendo, porra! Você perdeu reflexões e eu ganhei mais medos. Que bela troca!
e o que vem depois?
já me lembrei de esquecer meus medos
já guardei, até de mim, todos meus segredos
já colhi vitamina C direto do cacho
já ouvi minha música de macho
já ensaiei minha frase de efeito
e tô pronto pra matar no peito
pois sou filho de leminsky e seu hino
e o que pintar, agora, eu assino

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

reverberação do tempo

Acordou berrando e esperneando ao ver a luz
levantou da cama e fez perguntas idiotas (capciosas) a si
[entre o transe do sono e o pé no chão gelado]
tomou um banho gelado e animou-se, juvenil
[chegou a se indignar com o noticiário matinal]
entrou no carro e dirigiu ao trabalho com o braço pra fora da janela, som alto
no caminho pra sala topou o chefe e cumprimentou com respeito
trabalhou com a experiência dos seus já 40 anos
despediu do chefe, aposentado, louco pra ir pra casa
jantou e prostrou na frente da televisão
[babava]
deitou e faleceu
Eu sei que errei

mas prometo
nunca mais
usar a palavra certa

(Nicolas Behr)
Acordei e ela não estava mais do meu lado
achei-a debaixo da cama, com medo

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

vamo lá, eu acho que todos os textos do mundo tinham que ser escritos assim, na tora. Esse ponto final é pra eu respirar e pra pensar em outra coisa pois a minha cabeça é curta e rápida, igual uma tirinha do laerte, ela não sabe se delongar em tantos assuntos, ela quer passar por tudo e ainda a seu modo somente. de vez em quando ela volta, como que se cobrando por uma razão, uma mínima, para que eu não vá tantas léguas à frente e como querendo aprender, tentando fixar algo. Tanto é que foi outro ponto final. Eu dizia sobre como acho que todas as coisas deveriam ser escritas assim como Jack Kerouac ou como Saramago. porque dividir em capítulos, porque dividir em parágrafos, se quando pensei foi tudo junto? agora começo a achar que ponto final não é pausa pra porra nenhuma porque quando eu pensei em algo e logo depois mudei para o outro algo eu só fiz isso porque existiu o primeiro, logo, eu não mudei de assunto, minha cabeça simplesmente fluiu para essas bandas, e só fluiu porque precisou daquela placa de atalho. O ponto final, eu ia falar, é a intersecção do pensamento velho com o que vem vindo e que, para mim, vem ligeiro e vai ligeiro. Sinto que preciso dar vazão aos sentimentos, como diria aquela camiseta que eu vi numa loja pra comprar, e vou falar que ao mesmo tempo que achei bonita pela iniciativa achei uma puta sacanagem, pois dar vazão aos sentimentos é algo perigoso e não vem assim tão fácil. eu precisei de semanas de tristeza para me sentir vivo de novo. é preciso encher quando se está vazio e esvaziar quando se está cheio e coçar quando tiver coceira. mas, porra, me lembrar que preciso dar vazão é o que eu me lembro toda hora e por isso é triste abandonar minha tristeza. mas eu achei a camiseta uma puta sacanagem porque pareceu-me não como lembrete, mas como obrigação. ninguém é obrigado a isso não. é obrigado a sentir, isso sim. mas não a demonstrar isso, e fica até mais bunito quando não se quer demonstrar e acaba demonstrando, esses são os que ralmente sentem. E eu gosto é dessas pessoas que sentem, que se arrepiam com qualquer firmeza no falar, com qualquer conjugação idiota, que se idiotizam pra sentir esse turbilhão de coisas que eu quero como um futurista que passem sobre mim e me esmaguem! E a minha vem assim, mas do que nunca, em dias como hoje. Se eu amasse alguém, tá, eu amo alguns alguéns, mas tivesse comigo alguém que eu amo e que me entendesse, aliás parecesse me entender, porque ninguém entende ninguém já que eu mesmo não me entendo, se eu tivesse esse alguém, aí então eu falaria uma porção de coisas bonitas para essa pessoa. E juro que nem pensaria, pois eu estou com o peito aberto, flamejando de vontade de botar pra fuder e não encontro uma viv'alma que esteja sentindo o mesmo que eu, caralho!

domingo, 8 de novembro de 2009

Lá vem

Já vem vindo a nova velha sombra para me iluminar
Eu bem maior que o mundo
que se lasque a legalização da maconha
ou a nova missão da polícia
ou a última frase de Dilma-Lula
ou o último caso daquela atriz gostosa
ou o quantas twittadas por minuto são possíveis
ou o preço do seu ray ban

eu quero mesmo é gozar.

Guerra dos Sexos

O problema das feministas é que elas são tão machistas quanto os homens. Um desejo insaciável de superar o sexo oposto - como elas adoram ressaltar - de serem poderosas. Competindo com esse papo de igualdade de gêneros, de equiparação.
Para mim é muito claro que só o que muda é o que está no meio das pernas. É, tem a TPM também. Mas falo apenas por mim.
Admiro os homens que falam por elas. Um salve pra Lars Von Trier e para o Tom Zé. Para o Dan Brown não, só porque ele é best-seller.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Suadouro

só saia se sair Sol
só saia se sambar
sevícias, sirvam-no
serão santas,
só saia se sonhar
só saia se sofrer
só saia se sanhoso
só saia são
Só, sozinho

Tem Tempo

Os traços do relógio
guardam as horas sisudas e seguras
guardam o tempo

não me interessa

interessam, para mim,
as horas que nenhum relógio consegue medir
as horas que tem tempos tento falar
as horas que, ainda à tempo, direi:

as horas do CONTRA-TEMPO.

domingo, 25 de outubro de 2009

Mural de Mensagens

Passando só pra dar uma olhada mesmo. E pra dizer que a cabeça não para, não. Mas o tempo devia parar também para escrever por aqui.
(Maurício, o dono do blog)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Mural de Mensagens

Não se esquecer de calcular o seu atraso na aula quando for horário de verão.
(Universitário Comum)

Mural de Mensagens

Filma eu ô Print Screen!
(Anônimo)

Mural de Mensagens

Não se esquecer de tirar as notas de R$100,00 que deixou na janela para secar.
(Sr. Ricardo Matarazzo)

Mural de Mensagens

Pai, deixei um recado pra mamãe ma acho que ela não viu, será que o senhor poderia me mandar um dinheiro? Precisava comprar uns livros, é sério.
(Universitário comum crônico)

Mural de Mensagens

Mãe, me manda um dinheiro que a coisa aqui ficou preta.
(Universitário comum)

sábado, 17 de outubro de 2009

"Entre ásperas"

"Ah se o mundo inteiro me pudesse ouvir...
Eu ia ficar sem graça pra falar"
Como diria meu mano TIMhago Steckelberg

terça-feira, 13 de outubro de 2009

à galhofa!

Já me disseram que não é sempre que conseguem notar se estou a brincar ou a falar sério. Talvez porque eu não veja mesmo tanta diferença. Quando fico sério demais, passado o tempo, vejo que poderia ter rido mais daquilo. As coisas poderiam ser menos sisudas. Todo mundo poderia trabalhar brincando, pois brincar é uma das coisas coisas mais sérias que conheço. As coisas poderiam ser como um filme do Tarantino, ou uma tirinha do Laerte. As coisas poderiam ser um pouco mais brasileiras e, se nós somos os país do futuro - eu acredito nisso! sem brincadeira, agora! - o mundo ainda há de comer o biscoito fino que fabricamos.
Não dou ponto sem nódoa, ridendo castigat mores!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ridendo castigat mores



Quadrinho do genial André Dahmer.

Ridendo castigat mores.

Roda Morta

O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais
O triste em tudo isso é isso tudo
E as máquinas cavando um poço fundo
entre os braçais, eu mesmo e o mundo dos salões coloniais
Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás
Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais
Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa
e infame como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz
O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso eu quero sempre mais e mais

(Sérgio Sampaio)

domingo, 4 de outubro de 2009

Elas, minha literatura

A primeira foi um romance romântico. Escrita em novelas, tipo José Alencar, me fazia mendigar uns finais-de-semana para que completasse seu enredo, para que continuasse os seus finais suspensos. Como antigamente, quando só o Rio era alfabetizado, a gente lê para ocupar-se e porque faz parte daquele quinhão diminuto de poucos que tem acesso àquela prosa. Depois disso, abandona-se na estante. Vale enquanto dura, ri, curte o mistério, embarca na estória, mas o que se tem é pura ficção. Ludibriados com nossas próprias palavras bonitas, com nossas vontades, porém só a doce descoberta da literatura, a admiração do incompreensível, a identificação com as letras, apenas.
Mas ainda restou-me um livro de auto-ajuda que comecei a ler enquanto não havia terminado este. Tinha uma capa muito gostosa de se ver, boas intenções, conselhos, linguagem simples, mas nunca foi a minha linguagem. Para me achar prefiro escrever a ler . Este texto nem mesmo terminei.
Daí veio, enquanto lia o romance e o livro de auto-ajuda, o gibi. Os quadrinhos são o meu mal maior. Me fazem sucumbir, são como penso escrever, escrevendo com desenhos, frases curtas na cabeça e diretas no coração. Vem assim de assalto, sacodem seu esteio, te confundem, te fazem pensar mais que um livro de Sartre. Linguagem que cabe nas minhas roupas. É uma literatura pouco apreciada, subestimada e como bom idiota que sou, larguei para ficar com aquele livro de auto-ajuda; disseram, as críticas especializadas, que me fariam melhor, que era pro meu bem. Só porque ele era um livro gostoso e eu precisava de ajuda, consenti. Eu não sabia o que ler depois do romance da moreninha. Pudera eu ter lido todos os gibis de Laerte ou de Dahmer e seria mais feliz.
Fui lançado às apostilas de cursinho. Nunca me senti tão triste em toda a minha vida, passava só o olho e não lia nada com afinco.
Então despenquei nas poesias árcades; elas me vieram sem pedir, um amigo meu apresentou-me uma obra-prima a qual não parei de ler. Virei poeta, escrevia para minha Marília de Dirceu todos os dias, vivi como poeta. Fiz minhas milhares de petições diárias para mudar-se para o interior, fugere urbem!
Natural como um poema, a vida pede outros romaces. A chácara seria a mesma, o cachorro seria ainda um labrador negro de nome Branco, a rede para deitar ainda seria perto da cachoeira, a horta ainda teria as mesmas verduras: muito majericão e nada de coentro. Os livros seriam outros.
Em nova cidade, levei minha chácara para lá. Algumas obras já foram lidas. Umas nada tinham que adentrar cá, nem mereciam o quintal. Outras fizeram questão de entrar, visitar, e sair ao amanhecer, eram apenas contos. Outras mereciam todos os aposentos, mas nunca pude ter tais obras por serem densas demais para mim ou caras demais para comprar ou difíceis demais de se acharem, edições raras. Outras só fitei a capa, mas estavam reservadas para outros chacareiros, na maioria grandes latifundiários, a prenderam-nas em suas estantes em seus alqueires. Sem saber que nem toda obra é best-seller e é feita para todo mundo, há obras que querem escolher o seu leitor.

Modinha Pós-Moderna

Chegou a época em que é legal achar chata a vida.

Desnovelo III

Em briga de pobre, pessoas saem feridas. Em briga de rico, pessoas saem para comprar os vasos quebrados.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Algumas entrevistas de Ernesto Varela



Algumas perguntas cabeludas do carequinha Tas.
*Reparem nos nomes da equipe do programa.

Justificando

Nem gosto de falar com ares jornalísticos por aqui. Prefiro tratar as coisas com mais poesia nesse colóquio. Mas também não vou fazer mais um blog pra tomar partido de tudo o que ocorre nos noticiários, então posto por aqui mesmo.
Esse blog é o que sou e o que me preocupa. Essas coisas me preocupam sinceramente, ainda que sejam jornalísticas.

Custe o que custar, fiquem onde estão!

Na onda jornalística, queria dizer que tomara que seja só boato essa de que o CQC vai ter um desmanche em 2010. Danilo e Oscar pra emissora do Senhor, Luque pra Zorra Total... O melhor programa da televisão aberta (o único que vale a pena assistir) não pode acabar assim. E eles não podem ceder assim tão fácil! Eu ainda boto quente no Tas - eterno repórter Ernesto Varela - no comando de qualquer coisa. Um programa que queira trasgredir o jornalismo, sambar com essa sisudez de Bonner, sacudir a corja e, de quebra, muito bom entretenimento, não pode ser desbancado assim.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pela propriedade Intelectual

Vi no blog da OZI, Escola de Audiovisual aqui de Brasília, esta sacanagem. O primeiro vídeo que se segue é um curta-metragem de animação da turma que se formou e ganhou prêmios merecidos. Eu destaco o roteiro, que é o que mais me interessa na animação. Daí me vem o governo do Rio Grande do Sul e comete esse assalto intelectual! O segundo vídeo é uma propaganda veiculada pela agência Paim, contratada pelo estado gaúcho, e é uma cópia. Até alguns planos foram plagiados.
Fico puto com isso, pois até piada em buteco eu digo a fonte.
A Agência se retratou dizendo, no seu site:

"A Paim tem 18 anos de Mercado e uma reputação ética inabalável. Nunca tivemos nenhuma condenação no CONAR (aliás, quase nunca fomos representados). O mercado regional e nacional nos conhece bem.
Foi uma daquelas infelizes coincidências que podem acontecer quando há intersecção entre arte e propaganda. Ainda mais quando a referência de ambos é a mesma!"


Acho difícil que haja tantas coincidências, é só ver e tirar suas conclusões. Isso me pareceu aquela conversa do sabe-com-quem-está-falando.
É preciso leis severas de regulamentação da propriedade intelectual. Até o Mainardi tem direito a cunhar as suas burrices.
É preciso que o Brasil se inspire nas leis francesas e na vigilância que o governo faz na internet. A internet é um poço de inspiração e de xerox. Não estou fazendo discurso contra a pirataria, isso é outra coisa. É pegar uma ideia e dizer que é sua, é não dar os créditos (como fez a cantora Lily Allen, porta-voz da anti-pirataria no seu blog semana passada).

Entretanto, pedir que o mais forte não oprima o mais fraco, isso não posso clamar. É sistêmico. Não concordo com Marx nem com Niemeyer, pois acho inviável tais ideais. O governo e os seus braços são os pica grossa, não a escola de audiovisual - apesar de todo seu renome também. É triste mesmo.

Parabéns aos alunos pelo ótimo filme. E parabéns também a quem delatou o "crime".



sábado, 26 de setembro de 2009

Ode aos intelectualóides

ó baluartes da prepotência,
vigilantes da soberba,
complicadores de amor,
dificultadores da felicidade,
tipóias de enfermos,
contrariadores de simplicidade,
críticos de Nova York,
portadores de livros estrangeiros,
artistas da face,
discursadores voláteis,
sofismáveis mediante requinte dicioanaresco,
xerocadores de virtudes,
abusadores do 'para com',
ostentadores de biblioteca,

recolham seus respectivos cajados do conhecimento e sabedoria abundante
e enfiem, por obséquio, em seus respectivos cus!

Pós-crise

Eu amo as crises. Adentram a sala, reviram nossa mobília, roubam a nossa vigilância e saem pela janela, deixando a porta destrancada para voltarem assim que puderem. Posso dizer, confiante, que me reencontrei - ainda que amanhã a danada volte a me visitar. Sinto isso porque já consigo a cada 5 minutos odiar esse mundo - o da realidade - com a convicção que me é de destaque. Isso não é pessimismo, é consciência. É como um dia de Caeiro pra Pessoa.

Mentira

A mentira tem a perna curta, mas caminha a passos largos.

Stanley Kubrick





Faça você também Que
gênio-louco é você?
Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia




Para quem for se arriscar, postem nos comentários o resultado de vocês.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Meu mano

Queria dizer, cara, que nessas horas penso muito em você. Em quanto eu teria pra te dizer, mesmo estando vazio. E você me escutaria com sua paciência libriana, me diria outras coisas e acabaria por desviar o assunto a seu modo para seus conhecimentos. E sei que para conquistar realmente sua atenção é preciso bem mais. Eu sei quais momentos me ouve com todos os ouvidos, quando crê no que digo, quando aprende comigo. E sinto que hoje poderia ser um daqueles dias em que dividiríamos o chão do quarto lucubrando o mundo, perfilando nossa família, nos resolvendo como homens de caráter, homens de palavra, homens de verdade.
A gente falaria sobre tudo e todos com aquela acidez que é só nossa. Destilaríamos todos nossos venenos e preconceitos para se arrepender logo em seguida, querendo ser homens de verdade.
Falaríamos de nossos próximos, admirando os humildes e execrando (não existiria palavra melhor!) os prepotentes. Cada um ensinaria um cadinho pra cada. Você me ensinando sobre arquitetura, sobre ufologia, sobre religião e eu pontuando-o, dizendo como não pode ser e construindo meu discurso em cima do seu. Eu refreando seus acessos de pequena soberba e você refreando meus acessos de pequeno orgulho.
Depois falaríamos de mulheres, quais me enervam, quais me deixam sem rumo. Contaria um pouco de minhas histórias, você as suas. Falaria de como cada uma me representou e como eu sei tirar das coisas que me tocam. Como minha intuição trabalha e, nessa hora, eu sei, você me ouviria.
Contaríamos sobre as aflições dos últimos tempos. Sempre arranjávamos motivos para nos chatear, apesar de estarmos felizes!
Claro, como há de ser, encheríamo-nos de vanglórios. Diríamos em que somos bons e que o que está reservado para nós é maior. Um reconheceria e reiteraria no outro idiossincrasias de qualidades ímpares! Diria, com toda humildade que temos para tecer elogios a outrem: "Não há ninguém no mundo tão bom quanto você nisso". Com uma certa rasgação de seda, mas cheios de orgulho do outro.
Daí, olharíamos para o outro com tanta devoção, como se tivéssemos lavado a alma, parece que iríamos quase chorar, mas a gente se embruteceu um bocado. A gente ri, mas não como quando no almoço você ria tanto que cospia tudo. A gente encharca os olhos mas não chora como chorávamos quando papai nos mandava abraçar à força e íamos já se arrependendo de brigar. Depois de olhar assim um para outro nessa conversa de chão, diríamos palavras de como éramos honrados por sermos assim, essa relação tão leal pra sair dali conscientes do nosso lugar no mundo e com o peito aberto. Orgulhosos à beça.
Isso tudo me aconteceria, meu irmão, se você tivesse aqui comigo. Mas a gente cresceu um tantão e cada um vai seguindo seu rumo, mas eu não esqueço nunca as nossas promessas parceiras. Você está aí do outro lado do Atlântico, eu cá nessa terra um bocado estranha, mas ainda temos aquele chão de quarto a conversar. É triste passar, pela primeira vez, um aniversário seu longe de você. Feliz aniversário aí pra você, méguim. Que seja muito feliz.
Te amo, véio.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Para me achar

É tempo de vacas magras. A estiagem na cidade-de-dois-sóis chegou e sugou os lençóis da terra e também meu suor. Não me acho em nada e, já vou dizer, isso não sou eu. Tenho me procurado em outros poemas, mas também não há tempo para tanto. Não há tempo para meu ócio, não há tempo para as minhas sofreguidões a me arrastar para debaixo de mim, não há tempo nem de meu pobre intestino trabalhar como deve - e este já nasceu de recesso. É tempo seco, é tempo de trabalho. Espero não me arrepender de minhas escolhas, espero não me privar do meu ludismo. Eu queria mesmo é falar da beleza de alguma coisa, do amor, de um sorriso, de uma chácara que eu quereria ter, da morte, do processo educacional que para mim é certo, mas haja tacanhez. Sinto que posso sepultar meus sonhos com essas escolhas, mas essa é minha atual angústia, mas meu motor também. A meus amigos em crise, bem-vindos! Há tempos tenho passado pelo mesmo. Para isso uso um pouco daquele piloto automático, afinal 'você é um jornalista, companheiro!', bem na contra-mão do poema de Leminski.
Paro por aqui, pois sei que não me econtrarei fazendo prosas poéticas hoje - basta de exercer meu sistema transpiratório.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O eremita

Reduto

Fui escrevendo nas paredes, fui pintando meu redor. Fui me estampando, me scaneando e me imprimindo em muros. À porta de saída nomeei 'As Portas da Decepção'. Coloquei pedaços de mim que haviam caído em páginas minhas e de outrem, recolhi, garimpei. Fui espargindo meu sangue, meu cheiro, meu cérebro num coquetel louco em cada centímetro quadrado. Fui vomitando, cuspindo em tudo. Passei rosas também. As de pouco perfume. Fui sentindo meu gosto, tomando doses de mim. Fui refazendo minha aldeia em terra estrangeira, cercando-a de sonhos. Me isolei hermeticamente, vedei as portas de qualquer pensamento senão o meu, senão eu. Me revolvi ao meu reduto construído com a dor e a delícia de saber quem sou eu.
Erigi muralhas pra construir uma fortaleza. Tudo isso para que no dia de hoje, eu ermitão, pudesse me sentir melhor.

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

(Manuel Bandeira)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Parada Cardíaca

Essa minha secura
essa minha falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro

Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento

(Paulo Leminski)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Campanha anti-twitter III

A campanha ainda nem foi fundamentada e já contamos com dois adeptos. Há alguns dias meu companheiro de devaneios aderiu, como comentou em seu blog (http://danilosteck.blogspot.com/2009/08/camapanha-anti-twitter.html), e agora Feresin, sócio-fundador da Doutrina Gosrdística (está para nascer ainda os alicerces da doutrina mais pesada do mundo!), confessou sua queda pela campanha e vai lutar por ela também.

Na verdade ela já foi fundamentada em conversas de bar, disseminando a ideia sem nenhum discurso crente de convencer todos a se juntar ao lado negro da força. O papo vem e eu digo o que eu penso, quem quiser embarcar nessa e ser chamado de vovô ou dinossauro, vem comigo.

Já contamos com vários twitteiros reclamando pelos cantos (nossa primeira vitória!). Não queremos fazer com que o mundo largue seus twitters e vão para os blogs declamar poesias, primeiro porque eu acho injusto esse papo-Tim-Maia-Racional de arrebanhar pessoas, segundo somos conscientes da nossa pequenez - nunca passará de 10 os adeptos (se passar eu prometo fazer jejum de pão-de-queijo por um mês) - terceiro porque já vimos na História que lutar contra o imposto culturalmente é um suicídio ("eu não sou besta pra tirar onda de herói", Raulzito) e quarto porque isso não é nada sério, que é como penso que tudo deveria ser - pra quê tanta justificativa?

Ainda assim, temos levado em conta a hipótese de causar um bug do novo milênio.

Sério mesmo

Sério mesmo, se alguém me levar muito a sério, eu vou apelar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Nada

E como as palavras poderiam comportar tudo o que eu sinto agora que é nada? Se eu escrevo "nada", que dirá isso mais do que nada? As palavras, por ser algo, já são desleais a meu sentimento nadificante. E esse vazio no peito chiando, não reverbera em nada. Se o silêncio é som, como alguém escutaria-me? Se eu, ermitão, revolvido a meu quarto, falasse ou fizesse gestos que expressassem tudo o que eu sinto, que é nada, quem me veria?
Tudo é a tentativa vã. Ser é ser metade. Ser é uma tentativa frustrada e, nem a arte, será a representação cabal do meu corpo agora depovoado. E já hoje nada me surpreenderia, nem o desvio de minhas certezas, nem ninguém poderia falar algo que me chocaria. Nada me afeta hoje, agora. Que desabe o mundo, eu não vou me importar. Todo dia me canso mais um pouco disso aqui.
Nada, nem eu, é confiável.
As pessoas traem-se, imbuídas de razão. A razão vai ainda sufocar as pessoas. E penso em todas as minhas tentativas de me animalizar, de ser cada vez mais próximo de mim. Desde o filme do homem-urso, desde a aventura de Alex Supertramp, desde o namoro que me entreguei, desde os dias que comecei a escrever como terapia, desde o dia que descobri que quanto mais vazio, mais se é cheio de virtudes. E todas as vezes, por míngua de forças ou por empecilhos eu via que tudo é uma meia tigela. Nada comportará tudo o que eu sinto nesse exato momento - nem o fato de eu estar escrevendo como se psicografasse. Eu mesmo, com toda a minha metafísica, não sei racionalizar o ar que sopra no meu peito, esse vazio que faz eco; a tentativa de explicar-me já é a deturpação do que eu sinto. Tudo é uma grande merda tentando se fazer cheirosa.
Todo mundo traindo seu coração.
Ando cansado, nem a ficção comporta mais minha realidade. Entregar-se a deus é a redenção? E o medo de perder essa aposta sem volta?

Mas amanhã é outro dia para me enganar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

aê meu velho! (IV)

Diálogos poéticos

Maurício :

"Diga, meu amigo"

"A : Thiago, mas que sina
B : me diga qual é essa
A : fixação sua com a rima?

A : alternadas, interpoladas
A : muito bem metrificadas

B : mas versos livres e brancos
B : que não poderiam ser mais francos

A : Diga, meu amigo, se é estetica
B : se é pretensão
C : se é vicío
C : ou indício
B : de predileção
A : por trás da métrica."


Thiago :

" Réplica"

"A : Digo-te amigo
B : te respondo de bate-pronto
A : esse mania nasceu comigo
B : e vem à tona quando eu me confronto


C : comecei de baixo
D : espero chegar lá em cima
C : mas eis o que eu acho
D : se é bonito melhora quando rima

E: mas também te digo, maurício
F: usufruindo meu direito de resposta
E: o poeta não sabe se é vício
F: ou se faz porque gosta "





brincadeiras à parte
com bebedeiras em festa
descobri por aqui
que muito mais que pequi
goiânia também exporta poetas.


maurício
e thiago
dupla
de poetas
beira-lago.


JÁ que brasília não tem mar
não tem problema nenhum
a gente só amar...


e é encontrando poetas disfarçacados no mundo
nessas empreitadas solitárias
que continuo me permitindo ir a fundo
e escrever minhas poesias diárias;

http://parapoetisar.blogspot.com/2009/08/dialogos-poeticos.html#comments
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Assim escreveu meu parceiro leminskiano. Que boas descobertas a vida traz. Já é querido entre os poucos.
Escreve muito, mano. Não p(á)ara!

domingo, 30 de agosto de 2009

Desarrazoado

A razão atrapalha o mundo
atrapalha meus planos
estorva meu sábado

A razão desata lembranças
e traz nessas andanças
não mais que um apêndice
dura quanto concreto
dura não mais que uma amnésia
volátil feito fórmula de Newton

a razão fez com que o homem
desacreditado
sofresse o seu fim tragado num sofá

a razão destrói metros e metros de sentimento

a razão atrapalha o amor

a razão, naquele dia, ciscou esse terreiro para fincar a estaca da resignação mas não encontrou terreno firme. A razão, nesse dia, foi dançar na pista e não voltou.

domingo, 23 de agosto de 2009

Lifted

Tô meio sem tempo pra postar aqui, apesar de estar escrevendo bastante. Enquanto isso, para as moscas não tomarem conta, vai mais um da pixar aí. Em homenagem ao Guito, meu irmão (muita saudades, cara!).



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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"Besouro"

Taí, com estreia nos cinemas prevista para dia 30 de outubro, vem um filme brasileiro muito foda. Conta a história do lendário capoeirista Besouro Mangangá. Esssa superprodução nacional do diretor João Daniel Tikhomiroff trouxe, inclusive, da China o coreógrafo de ação Hiuen Chiu Ku, o responsável pelos efeitos especiais e lutas de "Matrix", "O tigre e o dragão" e "Kill Bill".

Mas tinha que ser da Globo Filmes? Na hora em que ouvi o mesmo narrador que anuncia o filme dos Trapalhões e da Xuxa desanimei um pouco. Mas fico todo arrepiado só de pensar na projeção que esse filme pode ter. É um ufanismo meio tosco, mas eu torço muito para que dê certo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Troféu Bexiga de Ouro

Está dada a largada. Quem tiver o mais branco ganha.

Técão 1 x 0 Eu.

Vai ter troco, seu bandido.

Técão é o cara que escreveu essa genialidade à la Angeli.
http://danilosteck.blogspot.com/2009/08/cor-do-objeto.html
(alguém além dele lê esse blog? Pra quê o link, então ô anta?)

Nome do prêmio dado pelo nosso querido Marcelo Lauria, o Marcelinho Perdigão.

Campanha anti-twitter II

A campanha anti-twitter já começou. É uma campanha solitária mas àqueles que quiserem participar serão bem-vindos para engrossar o coro dos descontentes. Assim, quem sabe, eu não faço tantos amigos quanto o Ashton Kutcher tem de seguidores.
Não dou ponto sem nódoa.

Volta e meia

Texto escrito há um tempinho atrás para o blog da minha turma de Comunicação. Andei pensando sobre essas coisas de novo nessa madrugada (agora já é dia) e vem a calhar, então. Vira e mexe penso nisso; aquele curta, por exemplo, que fizemos, nem sei se foi mais inspirado nesse texto aí ou em Michael Corleone metendo um sabugo na cara do Sollozzo e do McCluskey. Pra mim faz sentido.
Não dou ponto sem nódoa.
06:54h.

http://vamospolemizar.blogspot.com/2009/05/peticao-para-esses-que-ja-se-renderam.html

PETIÇÃO PARA ESSES QUE JÁ SE RENDERAM

Àqueles que não se cansam de se indignar, minhas salvas. Poderia aqui escrever um texto que contestasse suas várias atitudes, como esses gostam de fazer, mas entre esses e aqueles, prefiro aqueles, os que pensam que mudarão o mundo. Se sou como tais, não importa. Só importa o que direi a esses: calem-se. Não frustrem aqueles que diligentemente não se conformam, não desacreditem os que tem convicção de que são capazes, não ofusque os que, cegos, tentam fazer alguma coisa.
Não me digam que vocês serão chefes de redações de algum jornal sensacionalista ou donos de uma agência de publicidade. Parabéns a vocês (sem ironias). Corram pelo que é seu se as suas metas são encher-se de dinheiro, não acreditar no mundo, guardem toda sua sina pra você.
Calem-se, muitas pessoas vão querer ouvi-los (conformadas como vocês) nos seus jornais, lá vocês poderão dizer todos seus dogmas morais e serão acalentados pela maioria – e gostaria de desdizer Nelson aqui, a maioria não é burra, ela é só conformada (e juro, não acho que isso seja mal! É uma escolha, oras!) – mas, ademais, não desdigam aquele que trabalha por outro prol. Saiam juntos, aos bandos, amassem todo o barro que será digno de vocês. Chamem-me pra sair quando disserem o que pensam sobre o mundo, quero estar também, isso eu acho legal! Mas não frustrem aqueles que sonham. Não acabem com um discurso construído amiúde, com labor. Não se metam a dizer que não vai dar certo usando seu linguajar bombástico – ainda que saibam que não irá – pois essa é justificativa dos acomodados.
Não me falem de méritos, de quem suou a camisa pra chegar lá, isso não importa. Todo mundo fez o que suas condições (psicológicas, financeiras, ideológicas, etc.) lhe impeliram a fazer [Não sei ainda qual é a honraria em ser da artilharia do exército porque batalhou (não existiria outra palavra melhor) para tanto, se sua finalidade é matar pessoas e socar uma cultura sob o juramento sofismável de uma bandeira, mas isso é outra coisa (ou não)].
Se suas escolhas são só suas, em seu proveito, elas não interessam a ninguém. Soquem elas no seu ego e deixe ar para os que respiram também. Se você está cagando para o que os outros fazem, não os impeça de fazer, viva na sua redoma e cale-se. Nada tenho contra os acomodados, só contra os acomodados militantes.

Maurício Campos

Para enganar o sono II

Esse relógio aí está errado. São, na verdade, 5:51h da manhã.
Se eu durmo perco metade do dia de amanhã. As férias já estão curtas, tenho que aproveitar.
Se eu fico acordado vou ter que encontrar algo bem estimulante pra fazer. O que você me sugere? Comer, não. Ver tv? Só está passando programa infantil pela manhã. Pensar na vida? Daí eu durmo mesmo. Ler? Nem um livro bom poderia me soerguer. Continuar vendo vídeos no youtube? Já cansei.
Escrever para ficar acordado? Ó, acho que dá samba.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Campanha anti-twitter I

O twitter é o blog dos preguiçosos e pretensiosos.
Não dou ponto sem nódoa.

É importante fazer sua parte


quadrinho de andré dahmer.

Para enganar o sono

Essa noite eu sonhei não sei exatamente com o quê. Não ando conseguindo descansar nessas férias: há dias em que que durmo demais (e assim não se descansa) e há dias que durmo tão pouco que prefiro pôr óculos escuros para camuflar as olheiras.
Hoje me peguei acordando às 7:00h da matina. Acordei de supetão e prometi a mim mesmo não tentar dormir mais pois minha cabeça estava doendo. Sei lá, acho que ando tomando muita água à noite. Pode ser o sal demais que a empregada nova anda sapecando no feijão. Ou esse calor goiano que nem a noite se safa. Ou o quarto novo - o pior é que a cama deste é melhor. Ou a vontade de conhecer o mundo e me ver prostrado aqui na frente de um computador.
Mas não era sobre isso que eu queria falar. Essa noite tive pesadelos grotescos. Pedi penico várias vezes. Mas acordei puto de não conseguir anotar nenhum deles. E tentei me lembrar de algo e só consegui me lembrar de um cabelo blackpower que eu passei a ter repentinamente nesse sonho (ou pesadelo, fica a cargo dos designers de cabelo - não é assim que os cabelereiros gostam de se apresentar nas fachadas dos seus salões?). Pedi a aprovação de minha mãe, mas nem lembro se ela gostou ou não; presumo que não.
Fiquei indignado, porque eu sei que essas seriam iscas para os déjà vus que me saltarão de assalto em logo. Quem me conhece sabe que eu tenho déjà vus demasiadamente. Já sonhei com casas que nunca conheci, mas que anos mais tarde, ao visitar, reconheço não sei de onde. Às vezes é memória fraca só, mas boto quente em ser esse meu tino para o espiritual (claro, para eu que acredito nisso).
Acho genial o método de Dalí para pintar alguns de seus quadros. Sentava em uma cadeira de balanço em frente ao seu cavalete com a tela em branco. Em uma das mãos segurava uma colher bem grande. Daí deixava tudo pronto, pincéis e tintas, para que assim que a inspiração rompesse, colocasse mãos à(na) obra. Focava-se na tela, e começava a balançar para cair no sono. Assim que relaxava, estrondosamente a colher caía a lhe acordar. Pintava a primeira imagem que seu sonho lhe sugerira.
Eu queria ter a disposição de levantar bem na hora para escrever o quanto achei aquele sonho genial ou aquele pesadelo um bom exemplo de como sou eu se tivesse uma enorme lupa a me examinar. Como daquela vez que achei uma solução para a África em 3 etapas que deixaria qualquer sociólogo no chinelo; mas acordei e não me lembrava mais.
Eu sei que o blog não é um diário virtual. Isso é o que os velhos usam para definir isso aqui. Eu sei como é pedante ficar só ouvindo sobre eu, eu, eu. Sei lá, prefiro dizer nas entrelinhas. Até porque perco uma boa conversa me entregando de bandeja assim. Mas hoje tá foda. Tô com a síndrome de Carpe Diem (eita treco chato isso de se obrigar a ser feliz). Estou tentando ficar acordado até mais tarde. Meu corpo me clama para dormir depois dessa última noite mal dormida. Tô escrevendo sem parar e sem revisar no afã de dar um plus a esse dia moroso. Um blog nunca (NUNCA!) poderá ser um ombro amigo. Mas a cidade não me ajuda (nada pra fazer e esse calor), o dinheiro que tô juntando para viajar também não - eu poderia gastá-lo tomando umas ali no Buteco do Jiló - e nem o excesso de sal do feijão.
É importante dizer, picaretartisticamente, que a culpa é da falta de inspiração. Haja transpiração, haja piloto automático, como diria Luiz Martins.
Nossa, falei quanto uma lavadeira. "Que agonia".

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O papel social

O menino Mauro tinha a fixação de comer papéis. Eram papéis A4, folhas do caderno de deveres, jornalzinho de promoções do supermercado. Ele entendeu, um dia, que homens não comem papéis.
Mauro cresceu, virou adulto, criou juízo e agora voltou a comer papéis, veja que sina! E ele está certo de que a juventude é um vácuo e não tem nada a perder. Ele escreve no computador, o papel é para os antigos a escrever em seus papiros – ou para saborear na saliva e ver o que se quer.
Mauro se sente bem em se descobrir e em não coibir mais seus impulsos, agora quer comer uma resma inteira.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Caleidoscópica II

Ela me mostrou mais trocentas cores de seu espectro
quis absorver cada raio luminoso
eu sei, como a sombra que uso para enxergar
como a explicação pra confundir
eu poderia ter absorvido ainda mais
deixei fugir algumas frequências

aqui compondo versos de cor
acho agora que é verde-limão

Preciso de mais
Cegue meus olhos com toda sua luz
Me surpreenda

Estamira


Messias chegou e se chama Estamira
O diabo personificou e se chama Estamira
Uma louca não foi hospitalizada e nem colocaram camisa-de-força nela, está solta nos arrabaldes de Gramacho
[e se chama Estamira]
O maior poeta de todos os tempos nasceu e se chama Estamira
A astrologia não nega que sua escolhida é Estamira

mas Estamira é gente
E gente sonha.

"Tudo que é imaginável existe, é e tem ", Estamira.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Enferiado

- Ferias me alegram.
- Ferias me emburrecem.
- Ferias nao me deixam escrever textos longos.
- Ferias nao me deixam acentuar as palavras.
- Ferias desenvolvem meus raciocinios por atalhos e ainda me deixam so pelo meio do caminho.
- Ferias sao a tentativa va (til) de me dar cultura.
- Ferias engordam.
- Ferias me enchem de sonhos e bocejos.
- Ferias me dao alento.
- Ferias me fazem refletir, mas so a metade.
- Ferias fazem bem.
- Ferias sao assim mediocres como esse texto. Mas eu preciso me arrepender de alguma coisa pra poder fazer melhor. Entao que seja com esse texto ridiculo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Desnovelo III

Sorte de hoje do Orkut: Envelhecer não é tão ruim quando se pensa nas alternativas.
Pensei: To começando a me irritar com essas ironias.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Desnovelo II

Sorte de hoje do Orkut: Comece a ler um livro hoje.
Pensei: Mas eu já tô no final do que eu tô lendo, começo outro ou posso terminar esse?

terça-feira, 7 de julho de 2009

Na faculdade

O que o cativou foi o jeito como ela recostava a sua cabeça sobre a carteira. Acontecia às metades corridas das aulas. Ia descaindo vagarosamente, cedendo o seu encanto. Terminava esparramando a face, o rosto perfilado com as bochechas espreguiçando sobre o caderno. Dobrava-se por inteira e os braços soltos balançando ao deus-dará. A posição dava-lhe uma corcova que ele também gostava.
Tinha uma beleza especial, poucos reconheciam. Mas só era tanto porque ela se deitava na carteira se entregando.
Costumava ser prestativa, prática. Ele devaneador. Havia admiração recíproca. Ele chegou a enxergar nela uma ótima fuyura assessora para os seus mandos e ideias sem alça.
Entretanto, a sua presteza por ora ia se desnudando, como uma jornalista que pede férias. Como desabando na carteira, ia se revelando, desfalecendo. Era lindo, era isso o que procurava nas pessoas: seus defeitos. Adorava-os. Gostou certa feita dos dente tortos da sua antiga namorada, eram amarelados e felizes, riam com a candura de uma garotinha. Já então aqueles braços longos, espraiados lhe agradavam como Diego Rivera gostou das cicatrizes de Frida. Seu olhar vencido escondia histórias e agruras cujo apenas só seu diário compreendia. E enquanto ele a via assim entregue entre os lápis e canetas, olhando-na como que por uma fechadura em toda sua vulnerabilidade, ele a amou. Amou pela sua coleção de histórias não contadas, bem guardadas num bornal e que, aos bocadinhos, jogava por campos verdejantes.
Quis chamá-la para fazer o trabalho daquela disciplina em dupla.

domingo, 5 de julho de 2009

"Quando os covardes têm que dizer"


Limitado a fazer um filme nas imediações da UnB, com mais ou menos 12 planos apenas, duração estipulada para 1 minuto, e minha nula experiência para tal, fiquei grato pelo trabalho. Taí meu primeiro filme.
Queria agradecer mais uma vez à minha equipe (relação dos nomes logo abaixo), por terem me ajudado a dar asas à minha ideia. Certo é que é um filme totalmente diferente do que foi planejado (muito antes do roteiro!), mas isso não me incomoda, me agrada, pelo contrário.
Ainda ganhamos prêmios, com todas as adversidades e limitações já descritas no primeiro parágrafo. No Festival de Curtas dos Calouros (FECUCA)saímos com 3 prêmios: Melhor Atuação (grande Victor Mayer, o Montanha-Queba-Costela), Melhor Direção e Melhor Filme pela Escolha do Público.
Curti muito os filmes "Abissal" e "Chapéuzinho Vermelho", mandaram muito bem o pessoal das Artes.
Que mais outros venham pela frente.

ESTRELANDO LUIZ FELIPE LEAL VICTOR MAYER PEDRO BARROSO e VICTOR PENNINGTON
com PARTICIPAÇÃO ESPECIAL de Mr.WASHINGTON RAYK
PRODUÇÃO JOÃO PAULO MARIANO JULIANA LEWIS
EDIÇÃO VICTOR PENNINGTON WASHINGTON RAYK MAURÍCIO CAMPOS SOM WASHINGTON RAYK
ILUMINAÇÃO PEDRO ROCHA
CÂMERA RAFAEL COELHO
FOTOGRAFIA e STILL DANIELA MENDOZA
FIGURINO E MAQUIAGEM LAURA CHAER
DIREÇÃO DE ARTE WASHINGTON RAYK

*Mais fotos no meu orkut.

terça-feira, 30 de junho de 2009

aê meu velho! (III)

Letra da música "Algo que não sei o quê" do meu bom Prieleza.
Diz-se que uma música é boa mesmo quando bate na ideia e fica por lá. Outro dia amanheci cantando ela - ou melhor cantarolando, porque eu não sei a letra - e isso prova a tese.
Taí, então. Melhor seria com a melodia (boa pra caralho).
Abraço, muleque!

Algo que não sei o quê

Deve haver alguma coisa errada em mim
Algo que não sei o quê
Quando é dia só penso em dormir
E à noite dá vontade de viver

Todo mundo insiste em me perguntar
"Por quê tá com essa cara meu irmão?
Tem alguma coisa acontecendo com você
Algo que não sei o quê

A doce rotina tem a oferecer
Trabalho, lazer, religião
Meu amigo a vida é boa e lhe sorri
E você com essa cara de cão!"

Deve haver alguma coisa errada em mim
Algo que não sei dizer
Quando é dia a minha vida é tão ruim
E à noite até que dá pra se viver

Cai a noite, é hora de me levantar
Sou alegre como a escuridão
Quando é dia rezo pra que chegue ao fim
Tenho até medo de assombração

Fui ao analista, ao centro, ao pai joão
E até fui à igreja me benzer
"Tem alguma coisa acontecendo com você
Algo que não sei o quê...

DDA, insônia, falta Deus no coração
Trauma de infância, depressão
Charlatão, malandro, vagabundo de plantão
Quem sabe há algo errado com o colchão...

Deve haver alguma coisa errada em mim
Ou errado está você?!
Que gasta o dia inteiro a progredir
Pra à noite descansar ou morrer.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O artista

O artista é o homem que esquece. É aquele que inventa porque não lembra que já existe. Ele não se prende ao mundo, porque esquece que existe mundo. A sua inocência cândida é o seu projeto ardiloso. O artista se revisita inúmeras vezes porque se esquece do que criou. Por isso ele grava, grafa, grada, aos poucos, para que um mínimo de memória lhe reste.
O artista é um homem velho com Alzheimer. Remotamente se remete ao passado, mas não faz ligação com o presente. O passado lhe salvaguarda a linguagem: o único meio que tem para se expressar no presente; mas ele não sabe mais usar, então subverte-o. A diferença é que ele não tem Alzheimer.

sábado, 20 de junho de 2009

Urubus e Sabiás

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que bichos falavam...
Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para canto, decidiram que, mesmo contra a natureza, eles haveriam de se tornar cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejavam dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam permissão de mandar nos outros.
Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em inicio de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamavam por vossa excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida.
A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás...os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

- "Onde estão os documentos dos seus concursos?" E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam, simplesmente...
- " Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem ".

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam de alvarás...
Moral: Em terra de urubus diplomados não se houve o canto de sabiá

Rubem Alves

"Morre o burro, fica o homem"


É daqueles homens que não se acha mais. Daqueles homens que não se acovardam, que são éticos, que são corretos. É daqueles que honram sua palavra, dos dignos de um texto de Rui Barbosa, dos merecedores de méritos, dos que ensinam sempre. Daqueles teimosos, mas convictos.
Ensinou-nos que o futebol brasileiro, tão cheio de marra e manha e gingado, é sério também. Pois possui o drible malandro e o chute direto da fala, como dos pés. Não vou negar nunca que é um dos maiores heróis que tenho em minha vida, e que muito por ele, eu ainda bato em meu peito e digo: esse é o meu time. Ele é o técnico que tem a cara do São Paulo. Tão quanto Telê.

Obrigado por tudo, Muricy.
Espero pela sua volta.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Caleidoscópica

Dentre todos que ela tinha
ela me ofereceu um dia seu
Me propus a enxergar de que cor era

O dia era roxo ou vermelho
eu bem ainda não sei
Era luz
Preciso de sombra pra enxergar

Olhei com um olho só
fechei bem o outro
pois quis ver que era inteira
e não posso admitir que um caleidoscópio são 3 espelhos, um cano PVC e missangas de uma feira.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Meio semanoso

Já acordou já domingando
Era segunda, precisava sabadear
Mais seus dias nem suas feiras eram suas
e acabou morrendo na quarta
sonhando reviver na quinta

Para não esquecer

"A arte é o caminho mais curto de um homem a outro", Claude Roy.

sábado, 6 de junho de 2009

Vício

- Garçom, uma dose de mim bem caprichada.
- Com gelo?
- Não, não. Preciso me desencontrar pra me encontrar o mais rápido possível. Sem gelo, cowboy mesmo.
- Dia longo, parceiro?
- Nada, só excesso de realidade mesmo. Nada que não possa ser resolvido.
Serviu uma dose cavalar. Estava me viciando em mim, toda noite tomava litros. Um gole da maldita e já me sentia curado; gostava de me enganar. Ia de barriga vazia e cabeça vulnerável, louco para ser pego de surpresa planejada, querendo que o efeito surtisse rápido como se esvaía. Mas não há como, ali entregue eu me sentia senhor de si e feliz, pois sabia que exista infelicidade em mim, mas eu sabia, eu existia. Tateava meus braços para ver se já estava me sentindo. Me beliscava para confirmar que agora a dor era sincera. Era dor e machucava, mas era minha dor.
- Alguma coisa a mais, doutor? - Atravessou ele.
- Nada, amigo. Talvez o telefone dos Existencialistas Anônimos, caso um dia eu queira me tratar. Por enquanto só mais uma dose.

Graça, minha primeira lembrança

A névoa densa ia dançando na minha frente. Olha que bonito: vai pra lá, vai pra cá, corre, dribla, pula.
Tosse, tosse. Não, não tosse; se você tosse ela não cede, não ceda você. Sopra então, é, sopra pra lá essa fumaça. Tira ela da sua cara.
Ai, acho que não vai dar. Irrita meus olhos, o nariz, a garganta.
Eu tusso, tusso forte e fico vermelho de tanto tossir. Porra Graça, qual é a graça nisso?
Graça fumava, caipora louca, e depois Graça ria. O riso era bom, gostoso de ouvir, conquistava os débeis. Eu com meus meses de vida já ouvia com prazer ressoando no pé da minha orelha aquela risada. Tossia e ria com ela. Que desgraça, rindo assim ela traga uma carteira inteira na sua frente só pra te ver afobado, abafado. Paro de rir. Ela puxa mais forte, esbaforida de tanto fumo e bafeja mais. Tusso, tusso.
Tá perdendo a graça, já. Daí ela me ri de novo! Rio, rio de lágrimas dela! Que risada gostosa! Graciosamente ela ria e eu com ela.
Graça era empregada e babá. Minha mãe me deixava com ela porque confiava nela. E bem podia mesmo. Era uma senhora legal; matava as segundas por causa do porre de domingo, virava as pálpebras ao contrário e corria atrás de mim pra me assustar, fumava na minha cara, mas ainda então era legal.
Me divertia com ela e ela comigo. Cuidava de mim. Bem melhor que a Vânia que me deixava lá em cima e ia tocar violão com o porteiro. O violão da minha mãe, ainda.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

aê meu velho! (II)

Esses meus versos

Um dia convidei meus versos
para virem ao mundo,
apreciá-lo, admirá-lo,
compreendê-lo.

Covardes,
permaneceram.
Sabiam demasiado
do que era o mundo,
naquele pobre mundinho
de palavras jogadas no papel,
escritas por quem
acha que entende de mundo.

Mas, ah, aquele não era o mundo.
Aquele era um mundo
de papel,
plano.
Achatado.
Chato.

Tinham medo,
os versos meus,
desse mundo
de injustiças,
onde amores deixam-se perder,
esquecer-se,
onde o tempo passa
e é escasso.

Não viram a beleza
do mundo vivo,
estes meus versos.

Ah, como dói o amor,
e isto eles sabem da literatura,
mas nunca sentiram
a beleza de se sentirem
maiores depois de superar
tamanha perda.

Nunca viram a força de vontade
de um homem se levantar
dia após dia
sem pensar no que antes o fazia mover.
Não sentiram a beleza
de se renovar,
de serem a cada dia, diferentes.

Também,
ficam o dia todo naquela mesmice.
Esses meus versos,
tão chatos...


Danilo Steckelberg, meu querido Técão.
Aí um poema doído pra ser feito.
Abraço, meu velho! Escreve muito!
(http://danilosteck.blogspot.com/)

aê meu velho! (I)

Mas olhei pra cima, abri sorriso
Dei uma de esperto, afinal o teto
Também é parede em horizontal


Fábio Campos Coelho, meu parceiro Binho
(www.suscitardaspalavras.blogspot.com)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Riso

Ela riu de nervosa, mas se arrependeu. Riso assim não se mede, sai sobejando e infestando. Não foi lá um riso de gargalhada de estourar os decibels da audição, foi até um riso tímido, mas bem sonoro. Audível para perceber que olhos de esguelha lhe perscrutaram.
O professor de geografia não era um cara engraçado, era bem crítico, sagaz, mas longe da gargalhada e perto da galhofa. Ela nem havia achado tanta graça, porém teve de continuar rindo como se o que ele havia dito sobre a situação econômica chinesa lhe dissesse algo especial ou que só ela havia captado. Todo mundo ao redor sabia que não significava muito o que disse o professor, sabiam que o seu riso frágil havia rompido os ditames do risível e sabiam que aquilo não era mais especial para ela. Solícitos e experientes por terem rido assim outro dia, alguns sorriram por complacência.

Prazer

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Mundo Pequeno (Parte VI) de O Livro das Ignorãças de Manuel de Barros.

domingo, 31 de maio de 2009

Poesia - em construção

Dela as coxas brancas que contavam histórias.
D'outra o olhar furtivo, que escondiam histórias.
De ainda outra, o gosto da boca.
Desta o sorriso. Vai ser, vai ter de ser.

sábado, 30 de maio de 2009

The Real Human Interface

http://www.engadget.com/2009/05/22/the-real-human-interface/

Vi isso num twitter da vida aí.
Genial.

Bastardos Inglórios



Tarantino!
Estréia só dia 23 de outubro. Ficamos na espera.

Se eu tivesse um mundo

Se eu tivesse um mundo ou fosse o legislador deste que tenho residência, eu não mandaria ladrilhar nada com pedrinhas de brilhante. Teria um projeto único motriz, um projeto para abolir o que julgo ser o esteio firme dessa porcaria toda. Um projeto libertário que traria os maiores benefícios do mundo para esse que viria.

A primeira e única lei reinante seria: “Está instituída por outorga minha que o mérito terá todos os méritos na avaliação de cada indivíduo e será proibida e intensamente combatida a culpa cristã-católica que mora em cada um”. A despeito de ateísmos, pois até acredito em uma força maior, só não penso que até os cadarços de meu tênis foram feitos por esse ser supremo. Para os orientais abriria uma medida provisória para que abrandassem a cultura da honra – é boa, mas excessiva.

Nenhum crime será tão hediondo, nenhuma má intenção será tão má, nenhuma cama nem nenhuma chuva serão maiores que a indolência e o estorvo da culpa. Quantos textos deixaram de ser escritos, músicas de serem feitas, obras geniais, construções visionárias, idéias incríveis foram perdidas! Porque tudo é cíclico e tem a culpa como rabo da cobra de Uroboro? Porque o elogio não pode ser o motor de nosso ímpeto? Porque é preciso se sentir mal para que se faça o bem? Se somos falhos porque se importar com as falhas? Se acrasias nos convidam para o erro por que sempre ficamos nostálgicos com o porvir? Para que tanta pompa, tanta burocracia, tanto impedimento?

Eu realmente não sei ainda se o contraste da vida é que nos faz melhorar ou se só podemos ser bem mais porque existe o bem menos, mas eu testaria nesse mundo. Arriscaria perder tudo para se construir mais do que nossas limitações nos impedem.

Se desse errado, crimes violentos se proliferassem como vírus, os homens parassem de se indignar ou perdessem a fé nas coisas ou nada genial brotasse eu mudaria o meu projeto. Suspendia a outorga, decretava um ano de feriado mundial e pagava uma rodada de cerveja para todo o mundo. Depois ia pensar. Poderia começar tudo de novo até. Mas ainda acho que o problema está na maçã que a Eva comeu. Se ela estava com vontade, não sei por que o mundo tem de pagar por isso.

SE

Se minha mãe fosse homem, meu pai era viado.

"Até o Sol Raiá"



Até o Sol Raiá é provavelmente uma das melhores animações brasileiras em 3D de todos os tempos. Dirigido, animado e tudo mais por Fernando Jorge e Leandro Amorim de Recife, acabou meio desconhecido pois rodou poucos festivais, mas agora tá inteirinho no youtube.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Saramago, Jabor, Veríssimo ou Drummond


Quadrinho de André Dahmer.

Entregue

Tá. Só um medroso como eu pra fazer tanto melindre.
Procurei me testar nesse ínterim; não fiz menos do que minhas expectativas confidenciaram-me. Espero dar certo, sério.
A gente mitiga o medo, se esforça em esquecer e se lembra toda hora de esquecer. Daí, uma hora a gente fatiga o medo de tanto fustigar. Pensava, pensava, pensava, penso, penso, penso, não penso mais, nem sei se pensarei. No meio de um poema, ou de um bife mal-passado, ou de uma caminhada pra casa, a gente se lembra que esqueceu. Pronto; vai dar certo.
Está aí; devassem.

O que você diria para um jovem que deseja se tornar um escritor?
DANIEL GALERA - Nunca esqueça que não há evidência nenhuma de que qualquer ser humano na face da terra esteja minimamente interessado no que você tem a dizer.
(http://wwwb.click21.mypage.com.br/MyBlog/visualiza_blog.asp?site=clickinversos.myblog.com.br&primpost=yETg83Jwv6Xt0XMq04uH71012192726IRYHH3H0PF&inframe=T)

Mulheres

Há aquelas que se exibem em seus meandros, curvas sinuosas e insinuantes, como um rio caudaloso que não pede passagem, passa e deixa saudades demais. Na maioria só carregam sua volumosa existência, com pouco conteúdo na sua bagagem, vazias, fixadas apenas em passar.
Há aquelas que ante a força do tempo inundam lugares com sua obstinação e energia; amiúde a reformar, contornando, empurrando, perseverando, conquistando-nos com o seu custar. São tal como os mares a se rechaçar nas pedras, tão moles em rochas tão duras, até depois de tanto martírio conseguirem furar.
Também existem aquelas diminutas, empoçadas por aí. Vivem em suas limitações por falta de atributos que as façam transbordar e partir para outros lugares. Inertes e esperançosas sonham com um rio caudaloso que chegue correndo e as leve consigo, turbilhonando; um pé-d’água que provoque seu desterro. Por vezes, tal indolência pode trazer desventuras sofríveis. Os parasitas se aproveitam, acabam com suas belezas tímidas, roubam seus espaços, transformam o seu nicho e as enchem de cólera.
São também aquelas garotas finas e esbeltas como garotas finas espertas, tão subestimadas pela escassez de curvas. Discorrem pretensiosamente, vagarosas em seu enxágüe, vem silenciosas para abordá-lo, mas basta alguns minutos em seus domínios para que se dê conta do conto do vigário que lhe foi aplicado, encontrando-se encharcado, até enlamaçado.
Há de se considerar aquelas do dia-a-dia, usadas à torto e à direito nos deveres domésticos, nos banheiros públicos, misturadas com álcool barato, nos cochos da roça para os cavalos e bois. Negligenciadas e escurraçadas.
Por fim, e não há menos do que isso, há aquelas avassaladoras, capazes de destruir famílias com suas maldades, derrubam cidades, regiões, nações inteiras. Torrenciais, volumosas, despencam sobre os homens sem aviso, com alarde, alaridas. Roubam-nos a consciência quando não os bens, o carro, a casa. São capazes de repartir uma família ao meio, trucidá-la. Seja em Blumenau, no Sri Lanka, na Sicília ou na Ilha de Atlântida, iradas levam homens seguros à fossa, obrigando-nos a recomeçar sua vida. Muitos destes não conseguem recuperar seu prestígio e acabam por nunca mais viver, alagados em lágrimas, destroçados pela lembrança funesta daquela mulher.
Ainda que todas assim tão esquadrinhadas, são todas como água, sempre em movimento, obedecendo a um ciclo, mas sempre mutáveis, portanto imprevisíveis, como pensou Heráclito, não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo.

Behr refundando Brasília

Segue aí 3 poesias de Nicolas Behr enquanto descubro Brasília.

naquela noite
suzana estava
mais w3
do que nunca
toda eixosa
cheia de L2

suzana,
vai ser superquadra
assim lá na minha cama
(L2 noves fora W3, 1980)

eixos que se cruzam
pessoas que não se encontram

...

a cidade é isso mesmo
que você está vendo
mesmo que você
não esteja vendo nada

...
começa a demolição
quero que pra mim
os anjos da catedral

...

a superquadra nada mais é
do que a solidão
dividida em blocos
(Brasília Revisitada, vol. 1, 2004)

nossa senhora do cerrado,
protetora dos pedestres
que atravessam o eixão
as seis horas da tarde,
fazei com que eu chegue
são e salvo na casa da noélia
(Entre Quandras, 1979)

Viajante Solitário

"Eu estava disposto a me casar com ela, adotar sua filhinha e tudo mais, caso ela se divorciasse do cara, mas nem sequer havia dinheiro suficiente para o divórcio e a transa toda era irremediável; além do mais, Lucille jamais me compreenderia; gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente a outra até desistir. Assim é a noite, e é isso o que ela faz com você, eu não tinha nada a oferecer para ninguém, a não ser minha própria confusão". Sal Paradise em On The Road, de Jack Kerouac.

Quanto

Com quantos fakes se faz um real?
Com quantos modernos se faz um contemporâneo?
Com quanta modéstia se faz uma admiração?
Com quanta soberba se faz um repúdio?
Com quantos postagens se faz um perfil?
Com quantos recursos metalinguísticos se faz um vício?
Com quanto labor se faz um legado?
Com quantos passos se caminha o mundo?
Com quantos olhadas se faz um olhar?
Com quantas palavras se faz um texto?
Com quantos sonhos se faz uma ação?
Com quantos anos se faz a maturidade?
Preciso de quantas idéias para ser medido?

- Uns 3 quilos sem osso, por favor. Pode moer duas vezes também. Acho que dá.
- Grato, volte sempre.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ensaio sobre a crise

Daí vem um cara que me diz que a escrita é um pulo no desconhecido, que a crise é a mais fiel amiga. Essas coisas que eu não me canso de ouvir e que preciso, como um elogio, pra poder sorrir.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Conversa de botas batidas

Não aguento mais um idoso. Esse pessoal da melhor idade tem me dado repugnância. Com todo o respeito, eu tenho os odiado.
Talvez tenha crescido querendo ser homenzinho logo, querendo ser grande e ter responsabilidades. As coisas agora começam a se inverter. Posso dizer com todas as letras e palpitações: meu maior medo é ficar velho. Não quero mais nenhum ano nas minhas costas, quero estacionar nos 20 e viver assim pra sempre.
A rotina me enoja, os papos-cabeça-demais que nada mais são que as coisas pequenas bem cheias de rebuscamento (vai pra porra com os seus vícios de personalidade!), o excesso de opinião porque só refletem os egos querendo reconhecimento, a invenção calcada em um processo industrial-jornalístico em que criatividade vem depois de fórmula criativa.
Fodam-se todas as explicações porque (pessimista e realista) elas só são as vontades de dizer quem se é.

Eu preciso me lembrar que as palavras vieram depois dos homens.


Cara, que dia chato. Acordei querendo não dormir mais e agora quero que me acordem só quando a fonte da juventude brotar.
Vai pro caralho com sua trangressão infecunda!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Você é a razão do meu não-esquema

É preciso apaixonar-se. Se eu tivesse algum autor predileto ou um caderninho de frases maneiras ou a memória de Capote, eu incrementava isso. No entanto, não tenho. Mas a legitimidade da frase não se perde. Gosto é daqueles que querem, que esperneiam, que não arredam o pé até conquistar; tenho um fraco pelos caçulas, é bom lembrar (tenho que escrever aquele texto do complexo caçúlico; eita, tanta coisa pra escrever).
Acho que arranjei mais uma paixão para me devotar.
Isso podia ser escrito em poema, ou em parênteses dentro de parênteses, pois uma coisa puxou a outra, ou nem deveria ser escrito, pois se escreve pra ser lido por outrem (talvez) e ninguém sabe da existência do meu blog - só o Guito, mas talvez tenha contado pra ele porque sei que ele não vai se lembrar. Porque diabos eu escrevo aqui? Na verdade eu tenho dois motivos, mas nem sei quais são. Só acho que tem de ser dois. Dois é um bom número.

Do que eu tava falando mesmo?
Quem é o Você do título?
Porque escrevi em parágrafos se na hora que eu pensei foi tudo junto?

Maaassa.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Brasília em noite fria

Evocado pelo desejo de conhecer-te, cá estou.
E vem me receber assim? Suas ruas não me seduzirão tão facilmente; nem seus dáblius e éles, nem suas curvas autorâmicas, nem seu uniforme terno. Ou suas quintas quentes. Nem sua estrada duplicada. Ainda menos a grandiloquência destes nativos ou naturalizados que, à luz do Palácio do Planalto Prosélito, são raposas no falar; tentarão me convencer, dirão aquelas palavras sofríveis e sofismáveis e estarei fechado. Não será também suas quadras diagramadas, os seus números inúmeros em placas, placas e mais placas. Nem seus lotes vazios que, sei, serão preenchidos em anos. Nem sua arquitetura pensada por um homem de ideias fortes e vermelhas, concretizadas no concreto.
Não quero lembrar então das suas cidades-satélite girando à míngua, nem de seu trânsito vindo (pela manhã) e voltando (à tardinha), nem da frieza de seus ventos a me ricochetearem logo cedo, nem da frieza de seus conterrâneos. Mais ainda na inviabilidade daquelas idéias vermelhas.
Exclusive tanto, ficarei filmando-te. Filme documental. Decifrando-te, devorando-te. Sem falsos juízos, sem paradigmas, vou. Nu em pêlo, devassável.
Mas não será nada disso que me conquistará, agravante a frieza que me oferece nesse dia longe do lar goiano. Terá de ser muito, muito mais. Ou muito menos: suas mulheres que não são feias como dizem ou seus prédios de três andares para que eu possa ver o céu.

Sei que preciso aprender
Quero viver pra saber
E conhecer Brasília

Ver o que há, Paranoá
Lago de sol, noite, lua
O olho do amor desconhece a armadilha
Assim vim ver Brasília

(Sérgio Sampaio, "Brasília")

terça-feira, 19 de maio de 2009

Porque é proibido pisar na grama

Letra do maior poeta da simplicidade, o poeta de mentalidade mediana, o alquimista.
Porque É Proibido Pisar Na Grama
Jorge Ben Jor

Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundo
Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durão
Pois eu sou muito sentimental meu amor
Preciso falar com alguém que precise de alguém
Prá falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Prá meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
Se for possível vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mim
Preciso saber urgentemente
Porque é proibido pisar na grama

Testemunho de presença e porquê

Esse nome nasceu de um caderno roto meu que ainda carrega o mesmo nome - e ainda um alternativo (Aperiodário) - mas não quero copiá-lo, quero ter as mesmas inspirações: polutas poderão ser, porém sentidas no afresco/arfresco de meu peito.
Transpiro porque inspiro. Arfadas bem mais fortes serão necessárias desde aqui. Não sei pra onde isso vai, não penso ainda se vai vingar; apenas transpirarei.